Há 95 anos, no dia 4 de janeiro de 1929, Guilherme de Faria sai de sua casa, na Rua da Horta Seca, passa junto ao Largo de Camões, desce provavelmente a Rua das Flores até ao Cais do Sodré e apanha o comboio para Cascais. Escreve dois bilhetes-postais [que envia ao irmão José] e segue, junto ao mar, até à Cidadela e, depois, pela Estrada da Boca do Inferno. Foi um caminho sem retorno. Com apenas 21 anos de idade, o poeta precipita-se no mar. As fragas, a água fria e a violência das vagas reclamaram o seu corpo. Tendo recebido os bilhetes-postais com o carimbo de Cascais, o irmão inicia as buscas, desde a Boca do Inferno, pela volta da Guia, até à Praia do Peixe, onde foi encontrado o corpo de Guilherme de Faria. No dia 5 de Janeiro, no Diário de Lisboa, Artur Portela assina um artigo impressivo e comovente:

“Vemo-lo ainda: franzino, olhos negros, penetrantes, vivos, um grande sobretudo, com que ele se sentava, conversando entre amigos, numa voz apagada e enternecida. Guilherme de Faria, que ontem o mar, em Cascais, arrojou sobre as penedias, morreu como um poeta. Um poeta romântico que o sonho trespassou de realidade, a realidade que ele não soube ou não quis vencer. Os seus livros de versos, em cuja edição ele punha um cuidado quase feminino, cantavam como andorinhas surpreendidas pelo inverno da vida. E tinha vinte e um anos! Nos títulos das suas líricas havia já um vaticínio amargo, um destino a cumprir.
Sombra, lágrima embaciada de tristeza, Saudade Minha, tão pungente e refletida de serena dor, Manhã de Nevoeiro, recobrindo, fechando como a tampa de um sepulcro a beleza viva e alegre das coisas. Era um poeta íntimo, de uma fusão ardente e espontânea de sentimentos. Alma que procurava um rumo, talvez, no amor… muito longe ou inabitável no seu coração sincero, de formas puras.
Guilherme de Faria morreu em plena mocidade, porque assim o quis. Não quis esperar pela hora do triunfo e, sobretudo, por aquela experiência quotidiana em que as nossas maiores tragédias, no rolar do tempo, se dissipam com ironia, indiferença ou, quando muito, numa vaga saudade, sem aspiração…
Mas assim mesmo deixou uma obra escrita, com talento, estranhamente pessoal, sem ideias cansadas, nem harmonias já tingidas. Os seus versos são lindos, mesmo refletindo a doçura de uma tristeza vencida. Como as flores dos cemitérios, fecundas, duma pompa forte e tumescente, eles bebiam no aniquilamento um encanto indizível, um aroma coalhado de essências peregrinas, falavam e nós ouvíamos a voz profunda do rio dos mortos, correndo na terra, sem tréguas nem descanso. Guilherme de Faria deixou-se fascinar por ele. É já uma folha arrastada pelo borbotar obscuro desse caudal imenso. Mas, antes, como um passarito, cantou. Viveu, cantando. Amou, cantando. Nas raras vezes que o sol da alegria agasalhou a sua alma, teve delicados carmes para o celebrar. Então, garganteios de criança subiam-lhe aos lábios. Não era feliz, mas compreendia a felicidade dos outros, sem inveja, apenas ferido que ela passasse distante sem o reconhecer.
Morreu como um poeta! Deixou um livro, um livro a publicar que, talvez, revela o que não nos quis dizer. Como se a morte no seu corpinho tenro pudesse apagar, estancar a ferida aberta do seu coração em chaga! Aos que o amaram, as rosas comovidas da nossa piedosa saudade”.

Desde 2006 que me dedico ao estudo da vida e obra de Guilherme de Faria: reeditei a antologia SAUDADE MINHA [POESIAS ESCOLHIDAS] [em 2007, 2013 e 2021], coordenei a celebração do centenário do nascimento do poeta [2007], pronunciei conferências e publiquei artigos, dediquei-lhe o meu projeto de doutoramento [Os versos de luz por escrever. Vida e obra de Guilherme de Faria, publicado em 2013] e apresentei e o website www.guilhermedefaria.com [que será reapresentado no dia 6 de outubro de 2024].
Nestes anos, foi possível reunir, arquivar e documentar centenas de itens do espólio do poeta, recuperar a sua memória e a de amigos esquecidos ou desconhecidos, e restituí-los à história da literatura portuguesa.
Em 2023, foi assinado um protocolo com o Município de Guimarães que possibilitará a edição integral da sua poesia em dois volumes: POESIA ÉDITA [2023] e inédita [2024]. Estes dois volumes, organizados e prefaciados por mim e com uma ilustração da autoria de Monica Barengo nas capas, precederão uma publicação que reunirá, em 2025, testemunhos e a receção na imprensa coetânea.
Como escreveu Luís Amaro, a propósito deste trabalho: “Raramente um Poeta foi alvo de tamanha dedicação amorável! Mas sinto que Guilherme de Faria merece bem tamanha devoção”.