Ontem, na Igreja dos Clérigos, a convite da Associação Sociocultural Italiana de Portugal Dante Alighieri e da Casa de Itália no Porto, falei sobre a visão do Paraíso de Dante e sobre a visão de Dante do Paraíso. Ocorreu-me a carta que escrevi a um amigo, no dia 7 de abril, de Cracóvia:

Caríssimo […]
Espero que estejas bem.
Creio que esta carta nasceu em Florença, há três dias… mas só hoje a escrevo.
Convidaram-me, no final de 2018, para falar sobre a visão do Paraíso de Dante na Igreja dos Clérigos, no princípio de maio. Confesso que só alguma imprudência me fez aceitar este convite… o que sei eu sobre a ‘Divina Comédia’? Lugares-comuns? Mais confesso: nem sequer percebi se devo falar sobre a visão de Dante do Paraíso ou sobre a minha visão do Paraíso de Dante.
Li a ‘Divina Comédia’ em meados da década de 90. E não lhe dediquei mais do que essa primeira e única leitura. Recordo [com a acuidade das imagens mais nítidas] o seu Inferno, menos o Purgatório… e do Paraíso guardei apenas memórias embaçadas. Creio até [passados mais de vinte anos] que me aborreceu o Paraíso de Dante, ao contrário do Inferno, que li entusiasmado. Podia isto resultar, ao seu modo, numa interessante indução: é vibrante o fascínio que nos provoca o inferno e o paraíso [por mais que o desejemos, em abstrato, no fim da vida] tende a ser entediante.
Seja para falar sobre a visão de Dante do Paraíso, seja para falar sobre a minha visão do Paraíso de Dante, tive de reler a ‘Divina Comédia’. Como o quotidiano, nesta fase, quase não o permite, levei a ‘Divina Comédia’ para Paris e Roma [em janeiro], para Salamanca [em fevereiro], novamente para Paris e Roma [em março]. Sabendo que teria de vir a Cracóvia, no princípio de abril, resolvi conhecer Florença, onde passei três dias, disfarçado de turista, com o meu moleskine a urdir secretas intimidades com o volume da ‘Divina Comédia’.
Não sei ainda o que direi na noite de 3 de maio, na Igreja dos Clérigos. Poderei explicar a subida de Dante aos céus do Paraíso, essa espécie de teodiceia… deriva de viagem, escada de Jacob, escrito moralizante, alegoria que convoca um modelo cosmológico de estáveis esferas cujo recorte nos pacifica os olhos, pela arrumação criteriosa da realidade. Poderei explicar o Céu da Lua ou o Céu de Saturno, os graus de beatitude e as dúvidas de Dante. Falarei sobre a avareza de uns e sobre a sabedoria dos outros, sobre o Céu de Vénus ou sobre o Céu de Marte, sobre a visão da Cruz e sobre o elogio dessa Florença de que Dante sentia saudades. Poderei escolher, para melhor explicar as suas motivações, algumas das personagens que convoca. Ou então falarei sobre a missão do poeta e sobre a doutrina da salvação.
O que direi – se disser – sobre o primeiro móbile e sobre o empíreo? Sobre o ponto luminoso e sobre os nove círculos de fogo? Sobre o rio de luz e sobre a rosa celeste? Poderei falar sobre a oração de S. Bernardo, sobre a visão de Deus e a unidade do Universo, ou sobre os mistérios da Trindade e da Encarnação.
Ou então perder-me-ei diante da beleza de Beatriz… e assim passarão os meus dez minutos. Direi que Beatriz [aí pelo capítulo XXX] ficou ainda mais bela. Mais direi, sem ceder à tentação de um discurso de feição edificante, que a proximidade de Deus redobra a beleza humana. E serei mais barroco do que a Igreja dos Clérigos quando disser – por certo com algum exagero – que o meu desejo de ter uma filha que se chamasse Beatriz vem da beleza que entrevi, pelas palavras de Dante, no rosto iluminado da sua Beatriz.
Sabes que não tenho um temperamento místico, mas sou um contemplativo. Fiquei quase meia hora por baixo da cúpula de Brunelleschi, olhando atentamente para as pinturas [não me recordo se de Vasari ou de Zuccari]. Ocorreu-me aí a diferença, tão significativa, entre ver e ter visões. Creio que o Paraíso de Dante não é da ordem do ver, mas da ordem do ter visões. Como o direi? Uma coisa é dizermos o que vemos, outra é dizermos as visões que temos. Dante não escreve sobre o que vê, mas sobre as visões que tem.
Depois da Duomo, visitei a Basilica di Santa Croce. Antes de entrar, detive-me diante da estátua de Dante. [Lembras-te dessa estátua?] É quase hierática a sua figura, como que resgatada de um tempo em que a indigência não erodia nem os poetas, nem a poesia. Para quê poetas em tempos de indigência?, perguntava Hölderlin. Foi, depois, Antero quem vaticinou, no final do século XIX, que ao “som augusto da lira de Orfeu já se não erguerão cidades nem civilizarão povos. Essas cordas solenes e soberanas terão emudecido para sempre”. Antes suspirara pelo tempo em que “a Senhoria de Florença fazia explicar publicamente, na Igreja de Santa Maria, a ‘Divina Comédia’, como um quinto Evangelho, e encarregava esse ofício a Boccaccio, o maior erudito da época”. No tempo de indigência ainda é possível ver; a indigência, meu amigo, a verdadeira indigência, é já não ter visões.
Fecho os olhos e consigo ver, vagamente; mas não consigo ter a visão do Paraíso de Dante. E [convenhamos] o Paraíso é mais difícil de ver do que o Inferno. Do Inferno, ocasionalmente, eu ainda tenho visões [temo, assim, pela saúde ótica do meu imaginário].
Dante concebeu – por dentro do seu poema – um sistema que tem, subjacente, uma eclesiologia e que bem poderia ser organizado num tratado de soteriologia. Nele [na tecedura desse sistema] autolegitimou, em parte, a sua biografia, o seu exílio, as vicissitudes com que se viu confrontado nos últimos anos de vida. Exorcizou – enquanto subia – a indigência do seu tempo, eventualmente sem perceber que não era ainda a indigência dos poetas. Dante não viu o Paraíso; teve dele uma visão – uma visão magnífica. Os céus do seu Céu não são apenas a visão que teve, mas – mais profundamente – a visão que podia ter, apesar da acuidade dos olhos do seu imaginário.
Mas hoje só me ocorre a beleza de Beatriz: uma beleza diante da qual ainda se erguiam cidades e se civilizavam povos.
Tendo entrado na Basilica di Santa Croce, detive-me um pouco diante do cenotáfio de Dante. Um turista espanhol pediu-me que lhe tirasse uma fotografia diante da sepultura do poeta. Expliquei-lhe [talvez movido por uma qualquer síndrome de professor] que se trata de um cenotáfio e que Dante se encontra sepultado em Ravena. Pela sua expressão, senti que ficou desiludido e que teria preferido não saber. Perguntou-me se os túmulos de Galileu e de Michelangelo eram verdadeiros; disse-lhe que sim e ele devolveu-me uma expressão de alívio… afinal, quem pagaria oito euros para ver cenotáfios? Eu! Eu pagaria! Os cenotáfios comovem-me: são uma espécie de simulacro de um sepulcro vazio.
Terei apenas dez minutos na Igreja dos Clérigos e sei que dez minutos é o tempo ideal para dizer duas ou três inanidades sobre o Paraíso de Dante. Passei horas e horas a reler a ‘Divina Comédia’ e corro o risco de dizer duas ou três inanidades em dez minutos.
Tendo saído da Basilica di Santa Croce, percebi que tinha de subir, de subir como Dante. Na impossibilidade de subir às esferas celestes do seu Paraíso, contentei-me com a subida, do outro lado do rio, pela Via del Monti alle Croci, até ao mosteiro beneditino de San Miniato al Monte, um lugar onde talvez tivesse sido monge numa outra vida, numa dessas outras vidas que todos temos se, desapaixonadamente, reconhecemos as limitações da única vida que temos.
Aí, o silêncio e a luz rasante atenuaram uma certa frustração por apenas ver a visão que ele teve e não a ter [como um enigma que se resolvesse diante dos meus olhos].
Por cima do altar, na plataforma que ali medeia o espaço entre a assembleia e a abside, ao fundo, há uma espécie de instalação contemporânea com uma escada de mão erguida. Os banzos da escada não são paralelos, como seria expectável; ou seja: os banzos estão mais juntos em baixo e mais separados em cima, alargando os degraus do topo; uma perspetiva invertida para quem olha de baixo… não sei bem.

Cheguei ontem a Cracóvia.
Hoje passei a manhã em Auschwitz-Birkenau. Sobre isso, neste momento, não há nada que possa dizer-te sem atentar violentamente contra o que em mim guarda ainda uma centelha de esperança num Paraíso qualquer. Vi o que pude e tive [creio] uma ou outra visão. Apercebi-me que fiz o caminho de Dante ao contrário: de certo modo vim das visões do Paraíso para uma das muitas ruínas do Inferno… e tu sabes que o Inferno nunca habita muito tempo a mesma casa.
É verdade: é mais difícil ver o Paraíso do que ver o Inferno; é muito mais difícil ter visões do Paraíso do que ter visões do Inferno.
Em San Miniato al Monte senti-me íntimo de algumas das visões do Paraíso de Dante, como num pressentimento; mas do Paraíso que vejo [se é que vejo…] ainda não tenho visões.
Este poema fala da impossibilidade de ver o que é invisível [ao invisível só acede quem tem visões]. Dei-lhe o título SAN MINIATO AL MONTE para não ter de intitulá-lo ÂNGULO MORTO, o que denunciaria o meu problema, que não está nos olhos, mas apenas na dificuldade de ressuscitar esse ângulo de visão.
Com um abraço muito amigo, deixo-te este…

SAN MINIATO AL MONTE

De ti não direi a paisagem,
o agasalho, essa luz convexa que me ensinou
o outono. De ti direi a nuvem,
a espessura da morte
se entardece.

De ti direi que te não vejo,
que és, dentro dos meus olhos,
um modo de não ver, uma necessidade de sair.
Direi um desejo metálico,
um guindaste de pressentimento.

De ti não direi as ruas,
os espelhos.

Se tiver palavras, direi os pés
submersos nos degraus invisíveis,
uma escada de subir. Direi o silêncio
se houver palavras, o silêncio
de não ter palavras e saber a tarde.

De ti direi que me perdi, que da casa
só aprendi o chão e que sei da ruína o nome,
mas não sei o teu nome.
E prefiro o sabor das amoras ao poema
que te diz.

De ti direi que os pássaros
são uma hipérbole
da tua ausência.

Se entardece, pressinto que te assemelhas
a um pássaro morto, a um modo de cair.
Mas de ti nunca direi a gravidade.

De ti nunca direi a fruta
que nenhuma fome impediu que apodrecesse,
sob a sombra da árvore
penitente.

Se obedeceres ao desejo
metálico das minhas preces,
de ti direi que és
se te não digo.

Se obedeceres ao sabor das amoras,
de ti direi que habitas
impotente, necrófago bem-amado,
de ti direi que habitas
o ângulo morto.