Ontem, 23 de março de 2019, sentado num café de Paris, no Quartier Latin, desabafava comigo próprio, nas páginas do meu moleskine. Passaram quatro anos sobre a morte de Herberto Helder e, na intimidade da minha caligrafia, disse a mim mesmo o esplendor, o frémito que aprendi na sua poesia, o milagre que aí aprendi e que não sei ainda. E ao recordar a sua morte, senti-me a celebrar a sua vida.
Como se Paris ainda não soubesse da primavera e um vento frio me arrefecesse o desejo de ali continuar sentado, decidi regressar à Cité Universitaire. Como tinha tempo e como gosto de caminhar em Paris, optei por percorrer a pé os três quilómetros que me separavam da Maison du Portugal, onde estou hospedado e onde hoje pronunciarei uma conferência sobre a mistagogia da temporalidade na poesia de Sophia. Tendo passado pelo Panthéon, entrei na Librairie Portugaise, lugar onde tantas vezes descanso do frenesim da cidade e me abrigo do frio.

Na estante do fundo, lá estava o Herberto Helder. Por curiosidade, procurei alguns livros que a Assírio & Alvim publicou nas décadas de 80 e 90 e que são já raros e, por vezes, abusivamente inflacionados nos alfarrabistas portugueses.
Entre outros, a «Poesia Toda» e a «Última Ciência». Para meu espanto, quase perdido entre livros mais recentes, a “mítica” edição de «Flash» [1980], esse folheto fora do mercado, em edição de autor, que teve uma tiragem de 250 exemplares e que em Portugal, quando aparece um exemplar, não custa menos de mil euros.
Comprei o exemplar que ali estava, na Librairie Portugaise, com uma extensa dedicatória a Nicole Siganos, tradutora de Herberto Helder para francês. Custou-me 35 euros, cerca de 3% do preço pelo qual é normalmente vendido em Portugal.
E regressei à Cité Universitaire a conversar com Herberto Helder, sem pressa, sobre os milagres que me acontecem em Paris.