I.
Um pássaro caído no chão
traz-me a morte acrisolada,
amplexo azul que humedece
as mãos. Penso no fogo,
no consolo da cremação.
O pássaro caído torna-me esguio,
esculpe-me os dedos
por baixos das unhas.
Sou babilónico como um velho lírico,
bizantino como uma colher de sopa
sobre a toalha que a miséria
estampou de fome. Sinto frio
nos ossos e medo nas cartilagens.

II.
Sentei-me agora diante do ocidente.
A manhã contra o corpo
azuladamente contrafeito.
Quando o verão acabar será tarde.

E se não existir o lugar onde
combinámos o encontro, pergunto.

Escavei muita ausência. Hoje
restam-me memórias a supurar,
arestas peninsulares e uma cova.

III.
Quando o verão acabar
caminharei sobre as águas,
entregar-te-ei as palavras breves
do meu epitáfio. Silenciar-me-ei
depois. Amar-te-ei ainda.

José Rui Teixeira
ANTÍPODA | Caxinas, Casa Mãe, 2017, pp. 43-45.