Por estes dias, foi publicado o meu novo livro «Antípoda» [Casa Mãe]. No final, este admirável posfácio-diálogo de Jorge Melícias e Valter Hugo Mãe:

VHM | Tenho a impressão de que os poemas dos meus amigos são coisas íntimas entre nós. Talvez para não serem lidos ou entendidos por mais ninguém. Os poetas amigos são todos nus. E reconhecemo-lhes os versos, e a surpresa dos versos, como se fossem uma prole que lhes esperamos. Isto para dizer que, com o tempo, o José Rui não podia ser outro poeta.
Impressiona-me a sua melancolia que nunca é exactamente um lamento. Parece-te isso? Repara. Há uma tristeza inevitável, uma tragédia que perpassa a evidência de vivermos, mas o José Rui coloca-se sempre como aquele que está preparado para sofrer. O poema nunca se apieda dele. Não serve para o consolar. É outra coisa.

JM | Entro sempre na poesia do José Rui com uma sensação de admirável desfasamento, de um inteligível descompasso entre o ponto onde bate uma sístole e uma diástole retumba. Sei bem da naturalidade com que elas retinem no lugar do poema, mas é em mim que, demoradamente, procuro a caixa de ressonância que melhor as acolha. Isto para te dizer que nunca me foi fácil adentrar na poesia dele, que o deslocamento ontológico que ela exige de mim nunca me permitiu, enquanto leitor, senão uma constante tentativa de reposicionamento.
Entendo o que dizes, mas não creio que esse acolhimento da tristeza de que falas lhe seja tão natural, muito menos uma questão resolvida. Para alguns a morte será sempre uma apneia, uma aporia que se joga entre o absurdo de estar vivo e a perplexidade de morrer. Para o José Rui creio que é uma forma de respirar melhor. Sei sim que leio a sua poesia com a solene prudência de quem se abeira de um Deus que sei que nunca lidimará o meu desamparo. Conforta-me pensar que o dele também não.
Uma coisa que eu sinto é que a poesia do José Rui sabe sempre alguma coisa que eu não sei. Não creio que seja uma questão de sabedoria mas de intuição, como se, naturalmente, ela apenas “se adiantasse uma estação à verdade”. Por vezes não tens essa impressão?

VHM | Sim. E julgo que todos os poemas são auscultações à morte.
Se o poema é pura revelação, modo possível de transcendência, é da sua natureza saber o que não sabemos. Como uma ciência que só acontece daquele modo e daquele modo se enuncia. Por isso se destroem os poemas que citamos de cor, prejudicados no ritmo e no uso dos exactos vocábulos.
Tenho a ideia de que o José Rui escreve à semelhança do crente. Na dúvida, espera que a própria oração seja revelação e opere o milagre. Pleno de dúvidas, ainda assim, ele diz o poema para milagrar. O que eu apontava talvez se prenda com a questão da ansiedade. O crente é ansioso, controla mal a avidez com que pratica a adoração e espera pela redenção. Já a poesia do José Rui alude a uma estranha calma, mesmo que feita de tragédia e seja sobretudo uma longa disforia. Um poeta sem fuga, embatendo violentamente no terrível meditando. Como se lhe fosse possível morrer sereno. Como se lhe fosse possível naturalizar a notícia de que Deus não existe, tanto quanto a de que ele, finalmente, o visita.

JM | Julgo compreender o que referes e concordo em absoluto com o lugar de destaque que conferes ao primado da dúvida. Nesta poesia, a dúvida nunca é um chamariz retórico ou um atalho dialógico. Ela apresenta-se antes como um factor constitutivo e como móbil e pedra-de-toque de toda essa peregrinação de que falas rumo a uma ensaiada [mais que verdadeiramente desejada, creio] revelação. Isso e “o espetáculo desabalado da vida”, para pegar na fabulosa formulação de Raul Brandão.
Será, pois, uma ‘via-crúcis’ mais enviesada, e por isso profundamente humana, onde o crente se faz caminhando na exacta medida em que a progressão se constitui como um entrave à plena assumpção do seu [e nosso] requisito de cordeiro pascal.
Porque o problema com as ‘vias-crúcis’ ortodoxas é que nelas tudo ocupa o lugar que lhes foi antecipadamente destinado, numa passividade quase de écloga virgiliana, sem ambiguidades ou rupturas, maniqueísta até à cegueira, muitas vezes por excesso de luz, quase sempre por alienado determinismo. Não creio que a poesia do José Rui seja tão arrumada nesse sentido.
Nunca me arrogarei a negar o sentido hierático da escrita do José Rui, mas encontro muito pouco de contemplativa mansidão nos seus versos. Como em poucas outras propostas que dialoguem com o transcendente vejo-a como uma “implexa disciplina de dubitações e recuos”, onde muitas vezes, perante a ratificação do sentido do trágico, a fé não é lenitivo para grande coisa.
E como tu, também eu leio a poesia do José Rui como ancorada numa cosmovisão profundamente disfórica, mas o beijo [nunca] é nela “a véspera do escarro”. E isso é do domínio da grandeza da vida e apazigua-nos perante a morte, calculo. Sobre o mais que dizes e, excursando, ousadamente, a partir do famoso silogismo de Cioran, por vezes tenho a sensação de que Deus precisa mais do José Rui do que o José Rui de Deus.
Vamos entrar mais no «Antípoda» agora?

VHM | Nada do que dizemos se exceptua no novo livro, julgo. O que acontece é uma depuração. A maturação da poesia do José Rui é assinalável. Não é raro que cada novo livro nos surja como dimensão heroica do poeta que era até então. É como vejo agora este Antípoda. Mais rigoroso ainda, sem medo das coisas tremendas, uma companhia da morte sem pudores. Adoro que escreva: “Claro que podia morrer/ de amor, mas o tempo passa/ e aprendo que a morte exige/ bem menos à afetividade/ do que à inteligência”. É a síntese do desassombro perante a ideia assombrosa, como se o nosso amigo estivesse por dentro desse mistério espiritual. A morte não será a mãe dos seus filhos, conclui, mas não há senão uma sedução quase abusiva em que se mantém a lucidez de que o corpo se expõe, em todos os instantes, à contingência de passar e de ser debitado. A vida é pouco mais do que estar a morrer. Podíamos falar disto com o Raul Brandão inteiro na cabeça.
Lembra-me o primeiro poema do primeiro livro da Isabel de Sá, que ia à rua buscar a morte e a banhava por amante. À Isabel ficava-lhe a pulsão mais erótica, uma carne que fode. Ao José Rui, por outro lado, a questão suscita uma mecânica ancestral. Nunca é apenas um homem e no entanto a sua subjectividade está como causa de cada palavra. O sujeito poético destes versos é mais da ordem do sábio místico que, como Cioran na esteira da filosofia, enuncia a verdade. É da ordem do universal.
Quando diz: “A vida é assim um lugar desocupado./ Basta um minuto diante da beleza/ para que se torne redundante”, explica, naquela estranha calma que eu assinalava atrás — ou maturidade —, como adianta pouco esperarmos um absoluto em nós. Somos, se houver sorte, adiados para um tempo depois da fronteira da morte.

JM | Nada tenho a apor ao facto do que primeiro invocas: que o que dissemos até agora possa, de alguma forma, ser revogado por qualquer tipo de ‘close reading’ a este Antípoda. Nem tampouco naquilo que diz respeito à crescente maturação da escrita do autor de «Diáspora», que isso vem à tona da correnteza num trabalho caracterizado pelo zelo e pela seriedade. Olho, aliás, cada vez mais, para a obra do José Rui Teixeira como um monólito, poliédrico, mas perpassado por muitas arestas: reentrâncias que se desdobram sobre reentrâncias, que se abrem, por sua vez, para novas concavidades, num imarcescível embate entre a solidez de uma ontologia e o fulgor de uma iluminação. E mais do que ao rigor atribuo ao carácter profundamente intuitivo desta escrita a profusão dessas descontinuidades sobre a superfície do poema.
Perante a presciência deste trecho, “A tua morte esmaeceu/ o prodígio, contornou/ em âmbar e outono/ a fisionomia das árvores,/ seus augúrios irregulares”, sou tentado a pensar que há uma voz anterior que fala por ele desde a sua interioridade ou, como bem apontas, que a sua dicção se imiscui e releva de um olhar primevo ao qual não acedo pelo intelecto.
Pegando novamente num aspecto já aflorado nesta conversa, ressalta da minha constante leitura da obra do poeta a cada vez mais desassombrada relação com uma teodiceia. Conheço a poesia do José Rui desde os seus primórdios e estranhamente [ou não, verdade seja dita] não encontro nos seus trabalhos mais recentes qualquer mitigação posicional relativamente ao semantema “Deus”. É como se Jacob viesse, paulatinamente, a redobrar as forças no seu corpo-a-corpo com o anjo, como se a liça do poema fosse, cada vez mais, a intelecção do espaço da apostasia: “como se o amarelo se inclinasse/ sobre deus e o silenciasse”.
Não vou tecer grandes elucubrações [este foi, aliás, um aspecto sobre o qual, por alguma razão, o José Rui nunca se alongou comigo] em torno da importância do elemento da cor na poesia dele, mas este livro está pejado de “amarelos” e de todas as suas formulações, das mais quentes às mais frias, do açafrão ao ocre. Não sei se reparaste nisso.

VHM | Sim, sobre a cor. E sim, sobretudo, a esse Deus que, sendo tão fundamental, vai mirrando, como um miúdo que se equivoca também e se senta sob o olhar cada vez mais instruído do poeta. De facto, de todos os semantemas recorrentes na poesia do José Rui, Deus é o que mais se reposiciona. Como se o poeta ganhasse costume à sua evocação, como se ganhasse costume à sua questão. Há uma perda de deslumbre perante a figura ensimesmada de Deus e um fortalecimento exuberante da categoria de pessoa. O poeta, ou a pessoa, ascende. O tempo, a poesia, levanta-o. Não para humilhar Deus, mas para ajudá-lo. Fazer com que se torne credível, aceitável, legítimo. A pessoa justifica Deus. A pessoa, que se inteira da sua amplitude e que se burila na intrincada dignificação da vida, é a única que pode glorificar Deus. O resto da realidade existe à deriva sem espanto espiritual. Como dizias, a partir de Cioran. Deus precisa do José Rui. Ele precisa da pessoa. Diria que precisa da poesia. A oração talvez seja um modo prisioneiro de fé. O poema é uma adoração em liberdade.

JM | Que eu possa afinar o meu raciocínio por este diapasão veste com alguma naturalidade, mas, em relação à mundividência proposta pela poética do José Rui, não sei até que ponto é que poderemos colocar as coisas nestes termos, meu amigo. Sobretudo se tivermos em conta o arco poético-teológico que a tua formulação percorre.
Corroboro a tua ideia do “olhar cada vez mais instruído do poeta”, mas creio que isso decorre com mais propriedade daquilo que falavas anteriormente, da natural maturação de um poeta face ao seu mister, e não tanto de qualquer tipo de afrouxamento judicativo ou de uma qualquer inflexão de cariz religiosa. Mais do que uma inabalável crença na figura humana, continuo a achar que a redenção na pessoa e, por inerência, no ‘telos’ poético do José Rui passará sempre por uma soteriologia e que essa não será nunca um mero exercício de prestidigitação. O que eu creio é que à ‘doxa’ a poesia do José Rui apõe cada vez mais a possibilidade dialéctica da dúvida, e que à opacidade dos desígnios de Deus ele responde com o enfoque do entendimento humano. A sua razão é profundamente fideísta [eu prefiro chamar-lhe intuitiva], mas a sua fé também nunca anda longe da razão.
Mudando de agulha: tenho para mim, e já falámos sobre isto, que um poeta começa a escrever com todos os vícios de todos os poetas que carrega às costas. Literariamente pesam muito os mortos que trazemos a reboque. E que a persecução de uma voz mais não é do que uma tentativa, feita de avanços e recuos, de chegar à sêmea, isto é, à súmula dos nossos próprios vícios. A estes tiques literários que, ‘bottom line’, são aquilo que definem a identidade de uma voz, a ‘intelligentsia’ chama de “estilo”.
Não está tanto em causa se a opção de um escritor por um determinado tom ou forma [e, ao optar, o escritor individualiza-se na exacta medida em que se compromete] é uma escolha de consciência ou de eficácia. Ela vincula-o.
Tenho vindo a assistir com o maior dos agrados, de livro para livro, à plena assumpção desses tiques literários por parte do José Rui. E eles tornaram-se tão constitutivos como indeléveis: a mestria com que lança mão dos advérbios [essas dolentes partículas onde o sentido ecoa por mais alguns instantes], o uso recorrente e a apropriação nominal de figuras de retórica como a hipérbole, a metáfora [“cardíacas” ou não], as hipálages, as sinestesias, os hipérbatos e as elipses [só para me ater a este livro], quase como um mapeamento da literacia do mundo, com o intuito de o voltar a sopesar, densificando uma tomada de pose ou esmaecendo uma renúncia.
Não sei se me apontarás o facto de estas serem meras questões do foro técnico, passatempo de académicos atreitos a taxonomias e xerez, e, se o fizeres, terás provavelmente razão, e ainda assim “tropeço de ternura” a cada um desses pequenos vícios.

VHM | Creio que estamos a dizer a mesma coisa. E é o ponto que mais me interessa em toda a questão, a transformação de Deus num hábito. É como tomar a dúvida por ofício e criar a paz possível com essa condição. A teologia autopsia Deus, a poesia sabe mantê-lo vivo. Como se a primeira fosse a proposição puramente teórica da busca por Deus e a segunda fosse a prática da sua companhia. O uso de Deus. O seu exercício. Ainda que por impulso religioso o poeta possa manter as orações, é no verso que faz a prova de Deus e lhe dá a extrema utilidade. Um Deus tão honesto que assume a possibilidade de não ser. A paridade de ser alguém, de se enternecer com a humanidade, tudo o que temos. Talvez seja apenas um modo de amar, talvez seja apenas um modo de tornar o mundo e a vida suportáveis.
Cada novo poema é verdade, é a ressurreição de uma infinidade de mortos. Há um colectivo já endémico às palavras, gente que está no lastro da palavra e que é invocada inevitavelmente. Talvez o poeta esteja maduro quando domina a evocação contigente de cada vocábulo e use isso a favor da sua peculiar visão. O senhor Teixeira aprendeu há muito a incutir à poesia, como de certo modo ao mundo, como a Deus, o seu próprio esplendor.

JM | Sim, estamos a gravitar em torno do mesmo ponto. Mas esse parece-me, de resto, um dos nós mais fascinantes desta poesia.
Na sequência do que anteriormente dizes, não creio que a poesia do José Rui possa ser considerada, ‘ab initio’, como mística [pelo menos não no sentido em que comummente é tomado], uma vez que nela não se dá uma maximização da experiência religiosa [Paul Evdokimov], através da distensão do tecido da hermenêutica sagrada quase até ao seu rompimento. E estamos longe da abordagem proposta por figuras como Hildegard von Bingen, Hadewijch de Antuérpia e outras beguinas, longe do mestre Eckhart e dos místicos espanhóis do século XVI, num discurso normatizado pelos limites de uma teologia apofática, onde tudo procedia por sucessivas negações [‘via negationis’], estando-nos vedada a concessão de atributos tomados do mundo sensitivo para nos referirmos a Deus ou dele nos acercarmos.
A essa espécie de “ignorância perfeita”, a essa materialização negativa [em termos dialéticos] de uma pura positividade [em termos divinos], as coordenadas da poesia do José Rui apontam outras latitudes, passando, creio, por um posicionamento catafático face ao sagrado. Aqui, Deus, ao arrepio dessa ideia de inultrapassável transcendência face a todo e qualquer conhecimento e conceito, pode ser nomeado na sua indizibilidade e tocado na sua inefabilidade. Em suma: experienciado sensitivamente.
Ainda que não possam exprimir a quididade da sua natureza, esses conceitos, extraídos dos seres derivados de Deus, podem ser aplicados a Deus como causa primeira, forçando, à maneira de Vilém Flusser, a linguagem a desafiar os limites representativos da sua própria realidade.
É neste espaço que a epifania ganha forma, talvez através de uma domesticação da experiência no sentido de melhor servir o[s] nome[s] de Deus. E é aí também que se inscreve a quase imperceptível apostasia que a poesia do José Rui aporta: não tanto na corporização dessa catáfase, mas nos subtis limites a que ele a alcandora.
Mas talvez seja mesmo como dizes na tua belíssima formulação, meu caro, talvez a teologia seja mesmo “a proposição puramente teórica da busca por Deus, e a poesia a prática da sua companhia”.

Fotografia | Jorge Melícias, Valter Hugo Mãe, José Rui Teixeira e Rui Nunes. Cátedra Poesia e Transcendência — UCP Porto, 16 de setembro de 2017.