Caríssimo Cruzeiro Seixas
Não nos conhecemos pessoalmente, apesar de termos vários amigos em comum. Seja como for, acredito que há muitos outros modos de conhecimento e a distância a que nos situamos uns dos outros resulta certamente da diversidade desses diferentes modos de conhecer.
Literariamente, conheci-o em 2002. Foi o Valter Hugo Mãe quem me ofereceu o primeiro volume da sua ‘Obra poética’, publicado nas Quasi Edições. Esperei o reencontro que os outros dois volumes possibilitariam, em 2003 e 2004.
Já conhecia uma ou outra porção da sua arte, encontros fortuitos que foram embrandecendo algumas das minhas resistências ao surrealismo – confesso que só há alguns anos lhe entreguei algum coração, com a ajuda paciente de António Pedro e, depois, com a leitura dos manifestos de André Breton.

A poesia do Herberto Helder chegou antes, em 1993: a amizade do Daniel Faria trouxe-a pela mão ao meu convívio. Não sei como dizer-lhe que aí aprendi – comovido – a pressentir a espessura do silêncio. Creio que foi aí que li pela primeira vez o seu nome, na dedicatória de ‘Flash’, na reedição de 1990 da ‘Poesia Toda’ (Assírio & Alvim).
Passados mais de dez anos, em 2004, publiquei nas Quasi Edições um livro de poesia intitulado ‘Para morrer’. O António Cândido Franco ofereceu-se para entregar um exemplar ao Herberto Helder e, juntamente com o livro, enviei-lhe uma carta onde confessei uma gratidão desassombrada: a gratidão que devemos a quem nos ensina a pressentir a espessura do silêncio. Escrevi que, depois daquela carta, se um de nós morresse, não me afligiria a mágoa de a não a ter escrito.
Passados uns dias, no fim de junho de 2004, tinha na minha caixa de correio a resposta do Herberto Helder. Partilho consigo o último parágrafo desse manuscrito tremendo: “A frase com que sela a sua carta ser-me-ia pessoalmente tão favorável! Será premonitória? – Agora já me parece mais luminoso que um de nós possa morrer. – Que seja eu, por todas as razões. Uma dádiva magnífica. Luminosamente…”.
O silêncio tornou-se mais espesso. Um de nós haveria de morrer. Foi ele, não “por todas as razões”, mas certamente pelas razões mais fortes.
No dia 23 de março de 2015, o silêncio tornou-se ainda mais espesso.

Passados quatro anos, na tarde de 23 de março de 2019, sentado num café no Quartier Latin, sobreveio com assombro esse exercício de morrer luminosamente. Como se Paris ainda não soubesse da primavera e um vento frio me arrefecesse o desejo de ali continuar sentado, decidi regressar à Cité Internationale Universitaire. Como tinha tempo e como gosto de caminhar em Paris, optei por percorrer a pé os três quilómetros que me separavam da Maison du Portugal, onde estava hospedado e onde pronunciaria, no dia seguinte, uma conferência sobre a mistagogia da temporalidade na poesia de Sophia. Tendo passado pelo Panthéon, decidi entrar na Librairie Portugaise, lugar onde tantas vezes descanso do frenesi da cidade e me abrigo do frio.
Na estante do fundo, lá estava o Herberto Helder. Por curiosidade, procurei alguns livros que a Assírio & Alvim publicou nas décadas de 80 e 90 e que são já raros e, por vezes, abusivamente inflacionados nos alfarrabistas portugueses.
Entre outros, a ‘Poesia Toda’ e a ‘Última Ciência’. Para meu espanto, quase perdido entre livros mais recentes, um exemplar da “mítica” edição de ‘Flash’, esse folheto fora do mercado, em edição do autor, que teve uma tiragem de 250 exemplares e que em Portugal, quando aparece um exemplar, não custa menos de mil euros.

Comprei por 35 euros o exemplar da Librairie Portugaise, com uma extensa dedicatória a Nicole Siganos, tradutora do Herberto Helder para francês. Ali estava o seu nome, na primeira página – “Para o Cruzeiro Seixas” – e, na página seguinte o seu hors-texte.

‘Flash’ foi escrito em abril de 1980. Por esses dias, o Herberto Helder interpelou Vítor Silva Tavares: “Olha lá, quanto me custará fazer uma coisinha especial no Apolinário Ramos?”. Era o começo dessa “coisa secreta”. De acordo com Silva Tavares, o poeta procurava uma “satisfação íntima” – pergunto se não será sempre uma qualquer «satisfação íntima» o que, desde o princípio, buscamos na literatura, na arte.
Concebido na sombra, esse “mítico” Flash foi impresso em papel manteigueiro (costaneiro) por José Apolinário Ramos, o não menos “mítico” artista-tipógrafo da Tipografia Ideal.
A edição de ‘Flash’ exigiu ainda um esforço suplementar, já que a poesia do Herberto Helder seria precedida pelo seu hors-texte, a preto e azul, com pormenores vermelhos. Apolinário Ramos usou a desusada técnica da reprodução a zinco e os tons resultaram da paciente mistura das tintas litográficas.
Nesse outono de 1980, o Herberto Helder celebrou o seu quinquagésimo aniversário. Já era reconhecido como essa “máquina alquímica” que – nas palavras de Manuel Hermínio Monteiro – transformava o “quotidiano em ouro”.
O “folheto” foi distribuído em “furiosa clandestinidade”. Disseram-me que muitos dos 250 exemplares não chegaram a sair da casa do poeta. Não sei. Mas sei que – na tarde de 23 de março de 2019 – regressei à Cité com um dos exemplares deste livro nas mãos, enquanto conversava com o Herberto e consigo, sem pressa, sobre os milagres que me acontecem em Paris.

Sentado num banco do Jardin de Montsouris, tendo relido o opúsculo, demorei os olhos no hors-texte e escrevi no meu moleskine – em diálogo com a poesia do Herberto Helder – uma legenda íntima, destinada a ficar aí escondida e, depois, esquecida. Hoje, ao relê-la e transcrevê-la, ocorre-me esse ofício de pressentir a espessura do silêncio:

Situo-me ocasionalmente diante do poema. Sei que nenhum corpo é como esse, coroado de puros volumes de água. Sei que nenhuma busca é tão funda. Mas não sei quanto pesa na água uma ilha fria. E apenas entressonho a raiz de uma ilha. Raramente estendo os dedos para tocar as queimaduras do escuro. Sou terrestre, com todo o peso do coração no centro.
Assim, diante do poema. Ocorre-me o olhar de Deus, assim, diante do poema. Num instante, há muitos anos, imaginei-me fechado inteiro para sempre. Acreditei que pudesse ressuscitar em fogo se falasse depressa por dentro do furioso fulcro do espírito.
Completamente vivo. Repito: completamente vivo.
Detenho-me, assim, diante da arte medonha da paixão, da massa tremenda dos poemas. Acreditei que pudesse arder de me olharem de tão perto. Acreditei que pudesse ressuscitar em fogo por me ver Deus de um canto das palavras. Situo-me no canto das palavras, no canto do poema. E quase morro de medo ao sentir o meu nome ou o nome das coisas, a casa que se traz até ao centro, pelo poder do nome; até ao centro, com todo o peso do coração no centro. Medo de tocar as queimaduras do escuro.
Às vezes Deus torna-se rápido. Repito: às vezes Deus torna-se rápido.
Deus não me perdoa a carnagem sonora. Não é verdade que nunca durma. É só um distúrbio, um distúrbio do sono, as mãos à frente, entre o rosto e a fogueira. Sarça ardente. Não é verdade que nada me toque.
Que tenha Deus um sonho em carne viva.
Animal de Deus, eu. Uma ferida. Repito: Animal de Deus, eu. Uma ferida.
Também eu sei que toco. Creio que haja uma combustão nas partes sexuais da minha morte. O que sei eu acerca do leopardo aluado como uma joia? O que sei eu de uma boca que me beije por mim dentro até ao coração? Eu sou terrestre, com todo o peso do coração no centro. Sei que é aí que se morre do silêncio central da terra. Conheço a espessura desse silêncio.
Penso na ligeireza dos que buscam o peso da pedra, dos que buscam alguém que os toque… na boca. Devastam o mundo só de olhá-lo com força. Isso eu sei e a sua carne, essa estrela suada.
Nome do mundo, diadema.
Presumo que o que ouvi foi a água bater direta nas trevas. É um pressentimento: um Deus agudo, um Deus que dança, da escuridão para o alto.
La beauté s’ouvre les veines et en meurt. Repito: La beauté s’ouvre les veines et en meurt.

Devolvo-me ao silêncio, caríssimo Cruzeiro Seixas, um silêncio de “Esteves sem metafísica”, entressonhando que o universo se me reconstrua sem ideal nem esperança.
Com estima e admiração,

José Rui Teixeira
Porto, 27 de junho de 2020