Encontrei o diabo numa baiuca asturiana. Tinha o aspeto de um homem rural, nem novo nem velho. Pela porta, abertamente vaga, creio que foi Hemingway quem entrou. Encostou-se ao balcão e permaneceu em silêncio. Pareceu-me irrepreensível o contorno do seu maxilar. O diabo aproximou-se de mim e verteu sidra para um copo comum. Recordo o seu olhar vagamente anestesiado pela saudade de deus. Predominava o verde na baiuca. “A noite está amena”, disse o diabo provocatoriamente. “Não tenho medo de ti”, respondi. “Só temo a insónia”. E o diabo riu, como se ri até dos exorcistas mais experientes. E passou-me para a mão o copo de sidra. Hemingway sorriu com bonomia, encostado ao balcão. Só mais tarde saí para a rua, noturnamente ambígua nas suas reentrâncias. E o diabo foi procurar a intimidade de uma dessas mulheres que tecem virtudes pela noite dentro.