Na sexta-feira 25 de janeiro, pelas 21h.30, no Auditório do Colégio Luso-Francês, o José Luís Peixoto apresentará a minha poesia reunida: AUTÓPSIA, livro que inaugura a coleção “Elogio da Sombra”, coordenada pelo Valter Hugo Mãe [CoolBooks / Porto Editora].
Reúnem-se em AUTÓPSIA dois ciclos de seis anos da minha poesia: DIÁSPORA [2003-2008] e ANTÍPODA [2013-2018], a que se somam [em “post-scriptum”] os cinco inéditos de ECLIPSE [2018]. O livro é prefaciado pela Miriam Reyes [“Incurável”] e posfaciado pela Ana Paixão [“AUTÓPsiA em Si m”] e pelo José Pedro Angélico [“Breviário para uma manhã que se faz tarde”].
Numa das badanas lê-se este texto, de Valter Hugo Mãe:

“A poesia de José Rui Teixeira pode ser vista como uma delicadíssima soteriologia, no entanto, é ela mesma desconfiada do seu semelhante. Quero dizer, para o poeta o poema é voz tão falha quanto, também, única oportunidade de acertar, única oportunidade inequívoca de transcendência e divino. O semelhante do poema de José Rui Teixeira é Deus, essa figura sobre a qual precisamos de inventar tudo, desde o corpo, ao desígnio e pronúncia. Se neste poeta a ansiedade pelo divino é a constante mais visível da escrita, também 
é claro que a disforia inteira da vida, seu abandono e deriva, são fundamentais para entender que auscultação a Deus é esta. Como diria o autor, o estudo à luz da ‘teotopologia literária’ levaria a crer que se Deus não for real, poderá ser o poema o lugar onde ele nasce. A pergunta a que não se poderá fugir, então, será a de saber para que se angustia o exercício do verso no parto de Deus? Que equação insolúvel está flagrada no poeta para que apenas Deus a possa resolver?
Tão assídua quanto contida, epifânica, tão abstrata quanto precisa no jogo mais meticuloso das emoções, equilíbrio brilhante entre elegância, discrição e confissão, a poesia de José Rui Teixeira torna-se uma inteligência imprescindível. Ela é a lenta, mas inteira, aposta da Pessoa. Um gesto que sabe que cada instante é um agente a matar. A matar-nos.”

O poema que se lê na contracapa:

VIA DEI GIGLI D’ORO

Recordo a tua mão lívida, implícita
na aquiescência dos tecidos,
um advérbio estampado,
a sobreposição das cores.
Recordo a vida toda aí,
estampadamente assimétrica,
os filamentos de outros alfabetos,
a romã que doía,
expressionista,
sobre o prato branco.

Mas hoje é depois.

Durante o outono os cães ladram-me
esse modo tão doméstico
com que me afeiçoei à morte.


Fotografia de Luís Costa | 2016