No dia 2 de dezembro apresentei esta conferência — DAR GRAÇAS PELO DOM DE FÁTIMA — na Jornada de Abertura do Ano Pastoral, no Centro Pastoral Paulo VI [Fátima]:

1. Fátima entrou bem cedo na minha vida, como consequência natural de ser português e ter nascido na década de 70. A minha mãe pertenceu àquela geração de mulheres que ofereceu o vestido de noiva ao Santuário, como expressão devocional da sua gratidão por o meu pai ter escapado à Guerra Colonial.
Descobri recentemente uma fotografia que me retrata, com uns três anos, diante da Basílica, mas a minha memória mais antiga de Fátima remonta a 1980, teria uns seis anos e fui cumprir uma promessa da minha avó paterna que – esgotadas as intercessões a Santa Luzia – prometeu que eu iria à Capelinha das Aparições vestido de anjo se Nossa Senhora me curasse de um problema ocular congénito. Não tive, então, coragem de dizê-lo, mas confesso que me questionei: se foi a minha avó a fazer a promessa, por que motivo não ia ela vestida de anjo? A verdade é que, apesar de me sentir incómodo naquela situação, confortavam-me os óculos que, entretanto, o oftalmologista me receitara e com os quais passei – literalmente – a ver o mundo. E os óculos ficaram associados a uma bênção: a criança que eu fui intuiu ser quase uma cura aquilo que, hoje, os meus filhos diriam tratar-se apenas uma espécie de ‘upgrade’.
Uma e outra vez, a família reuniu-se em Fátima, como expressão devocional de um catolicismo sociológico que em Portugal ainda move multidões. Desse tempo, guardei um cosmorama de plástico verde, com o formato de um televisor e o funcionamento de uma máquina fotográfica, onde se viam imagens de Fátima e mecanicamente se reproduzia a narrativa visual da ‘visitação’ da Mãe de Jesus àquelas três crianças que habitavam um ‘país real’ que era a periferia da periferia, interlocutores da transcendência tão improváveis como aqueles que – com os olhos de criança – conheci nas páginas da minha Bíblia ilustrada. Quantas vezes visitei, através do óculo daquele cosmorama, esse lugar onde milhares de pessoas se ajoelhavam com um pressentimento de hierofania, entre a catarse e o paroxismo.
Conservo ainda – em memória profunda – essa narrativa da infância e não permito que o teólogo a venha esquadrinhar. Ainda hoje me deixo comover por aquelas três crianças, cuja história nunca me pareceu minimamente ‘edificante’: esse tipo de histórias limpas, que aconchegam o corpo ao sono e que são um lenitivo, mas sem nunca deixar de ser um placebo. Aprendi cedo que as grandes histórias raramente são edificantes. As minhas primeiras leituras foram as narrativas dos irmãos Grimm, de Hans Christian Andersen e de Oscar Wilde. Mais tarde, de Shakespeare a Dostoievski, as grandes leituras da minha vida nunca desmentiram a verdade dessas primeiras histórias. A minha Bíblia ilustrada, com que povoei de História da Salvação o meu imaginário, não tinha qualquer cosmética; não havia a censura do ‘biblicamente correto’. Estava tudo ali, como na vida: a vingança e o amor, a traição e a fidelidade, a violência e a bondade, a ira e a misericórdia. Como eu gostava da narrativa de Jonas e do grande peixe… Como fugir de Deus?
E por tudo isto horroriza-me uma certa exegese e homilética de feição edificante. Preocupa-me que se omitam ou se contornem as leituras difíceis.

2. Mas pensemos na Cova da Iria, em 1917: era um desses lugares onde não poderíamos ser visitados, tal como Nazaré nunca poderia ter sido o lugar aonde Deus enviasse o anjo. Está tudo certo. Em 1917, a esmaecida Europa cristã era uma espécie de casca frágil que as trincheiras e as valas comuns, ao modo das fronteiras, partia impiedosamente; e Portugal, que na sua automitografia se arrogou objeto de uma particular predileção divina, era pouco mais do que uma nação periférica, vítima endémica de pobreza, analfabetismo e outras pandemias. E é na periferia dessa periferia, num desses baldios do mundo, que por meio dessas crianças fomos visitados.
Sempre me irritou aquele catolicismo nacionalista que usou uma mariologia envesgada como arma de arremesso contra os histerismos e os rancores anticlericais que, em Portugal, foram sempre tão institucionais quanto um certo clericalismo provinciano, com os seus caciques e provisionamentos de retórica bafienta. Sempre me irritou aquela fação snob – dentro e fora da Igreja – que paternalisticamente considerou e considera Fátima um entretenimento religioso para a turbamulta. E sempre me irritaram aqueles cristãos que viram e veem Fátima como uma ’tábua de salvação’ para a Igreja portuguesa. Digamo-lo sem medo: Fátima é circunstancial e só assumindo desarmadamente esta perspetiva é que poderemos dar graças pelo dom de Fátima.

3. Há uns anos, certamente indignado com uma certa indiferença da minha parte, alguém quis convencer-me do carácter ‘essencial’ dos dogmas marianos, citando para isso papas e doutores da Igreja. Porém, o meu problema é a semântica e a dinâmica que se estabelece entre a extensão e a compreensão dos conceitos. Para mim, o essencial é o essencial: é o constitutivo da essência, aquilo que é condição ‘sine qua non’. Para mim, condição ‘sine qua non’ para ser cristão é Cristo, Ele em mim e eu n’Ele, pela ação do Espírito Santo; condição ‘sine qua non’ é o Evangelho, enquanto realidade entranhada na minha autoconsciência, desdobrada em literacia e em práxis. Com efeito, o desaparecimento de todos os exemplares impressos dos Evangelhos não beliscaria a minha condição de cristão. É tão simples quanto isto: se eu não aceito que deixaria de ser cristão por viver num lugar onde não houvesse a possibilidade de celebrar a eucaristia, por que motivo terei de aceitar que o dogma da Imaculada Conceição é essencial para a minha condição de cristão?
Curiosamente, conservo o hábito de ler regularmente “A oferenda” [1] de Theilhard de Chardin, do seu «Hino do Universo». Há mais de vinte anos que o faço. Ali está o essencial; uma expressão poética do essencial.
Fátima é circunstancial. Mas é à luz do circunstancial que o essencial frutifica, na vida de cada um, em estado de graça. E é à luz do essencial que podemos dar graças pelo dom do circunstancial.
Não faltarão especialistas a refletir sobre o fenómeno de Fátima desde a perspetiva da Teologia ou da História; eu prefiro concebê-lo poeticamente: para mim, Fátima é uma poética.

4. Na teologia cristã, a ‘graça’ é a ação livre e gratuita com que Deus, em Cristo, chama o homem à comunhão consigo. Corresponde ao termo latino ‘gratia’ e ao grego ‘cháris’, que traduz habitualmente os termos hebraicos ‘chen’ e ‘chesed’, que indicam não só um gesto de benevolência, mas – mais profundamente – a atitude fundamental da qual brota tal gesto [2].
Diria que a graça é a exposição do homem à misericórdia de Deus. Tendo em consideração que se trata de uma exposição incondicional, Karl Rahner pergunta: “Teremos feito alguma vez, verdadeiramente, experiência da graça? Não queremos aludir, tenha-se isso em conta, a um sentimento genérico de devoção ou a uma exaltação religiosa, de tipo festivo, nem sequer a qualquer consolação interior de doçura, mas à experiência da verdadeira e genuína graça, isto é, àquela visita do Espirito Santo” [3].
A graça implica esse tempo – ‘kairós’ – em que somos visitados e resulta num estado – estado de graça – que essa visita proporciona. É algo que se recebe e que se dá, algo que passa por nós: pertence-nos, mas não a possuímos [4].

5. Proponho assentar esta reflexão em duas passagens do Evangelho e podemos começar pela parábola do banquete nupcial [Mt 22, 1-14].
Esta narrativa principia com uma comparação: “O Reino dos Céus pode comparar-se a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho”. É importante que o ponto-de-partida seja o Reino dos Céus, na medida em que penso numa eclesiologia que dialoga intimamente com a soteriologia e a escatologia; e entristece-me uma eclesiologia que se resigne à sociologia da religião. Sinceramente, só me interessa uma Igreja que ainda acredita e vive a condição de ‘crisálida’ do Reino dos Céus.
Mas regressemos à parábola: como em todos os banquetes nupciais há os convidados e o rei pediu que os servos os convocassem para o banquete. Sabemos quem é, metaforicamente, este rei e quem é o seu filho. Também conhecemos os convidados: sejam eles os próprios príncipes dos sacerdotes que interpelavam Jesus, sejamos nós que circulamos pelos meios eclesiais, eventualmente confortados com a ideia de uma espécie de garantia de salvação ou mesmo com uma certa sobranceria, muitas vezes disfarçada com as mesuras da falsa humildade; eles ou nós, gente mais ou menos piedosa, com a consciência de um lugar cativo diante de Deus, como se de um banco da igreja se tratasse.
O rei manda chamá-los, mas eles não querem ir. O rei insiste e envia os servos com uma mensagem muito concreta: “Dizei-lhes que preparei o meu banquete… tudo está pronto”. Mas os convidados não estão interessados: um vai para o campo, o outro para o seu negócio e os outros, como se a indiferença não bastasse, espancam e matam os servos. Tal como com o dono da vinha, na parábola dos vinhateiros homicidas [Mt 21, 33-46], a indignação do rei proporciona uma espécie de interlúdio para um circunstancial ‘dies irae’. Acentuam-se aqui, por um lado, a insistência do rei e, por outro, a determinação e a persistência na recusa por parte dos convidados.
Como se o tempo, em sentido cronológico, fosse irrelevante, e predominasse o presente em sentido salvífico – ‘kairológico’ –, o rei diz aos servos: “O banquete está pronto, mas os convidados não são dignos. Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas todos os que encontrardes”. E assim fizeram: reuniram todos os que encontraram, bons e maus… repito: bons e maus. Quem são estes outros convidados? São invariavelmente os outros, alguns de nós, os noventa e tais por cento de batizados deste ou de qualquer outro país sociologicamente católico, essa multidão que só conta para as estatísticas e que não adquiriu consciência batismal, essa turba que “batiza-se agora e catequiza-se depois”… e que está por evangelizar há séculos.
A parábola prossegue, mas – no contexto desta reflexão – podemos ficar por aqui. Creio que esta narrativa tem muito a ver com Fátima, com o dom de Fátima pelo qual me sinto visitado e pelo qual dou graças. Quando observo as fotografias do 13 de outubro de 1917, lembro-me sempre desta parábola. Sinto que essas pessoas são esses outros convidados: essa gente improvável que vive nas periferias, encontrada nas encruzilhadas, essas arestas do mundo onde já nem o diabo descansa.
Dou graças pelo dom de Fátima, porque quando me distancio do seu epicentro e busco a distância da observação desapaixonada, vejo ainda essa gente que aceitou o traje nupcial; essa gente que, tendo sido chamada, deixou-se escolher.

6. A outra passagem do Evangelho na qual assenta a minha leitura é a narrativa de Marcos 5, 21-43 [5]: logo no cais, Jesus é cercado por uma multidão; um homem chamado Jairo aproxima-se e suplica-lhe que o acompanhe, na medida em que a sua filha está a morrer. É relativamente simples concebermos um arco entre a súplica de Jairo e a poderosa expressão ‘Talítha kum’ [6], que despertará a menina de doze anos. Mas o que me parece mais impressionante nestes 22 versículos é essa espécie de interlúdio que se representa sob a cúpula do arco narrativo: o evangelista fala-nos de uma hemorroísa, uma mulher que tinha há doze anos um fluxo de sangue e que muito sofrera nas mãos de vários médicos, tendo gasto tudo o que possuía sem nenhum resultado e assistindo, impotente, ao agravamento da sua situação. Esta mulher tinha ouvido falar de Jesus e, vendo-o passar na direção da casa de Jairo, pensa para si: “Se ao menos tocar as suas roupas, serei salva”.
Facilmente censuraríamos a pretensão desta mulher: é ingénua e reduz a soteriologia a uma interseção. No meio da multidão, a mulher consegue tocar as roupas de Jesus, essa orla do manto. E Jesus sente-se tocado. E é no toque pressentido que acontece o encontro e a cura: “A tua fé te salvou”.
A orla do manto é uma periferia do corpo, uma extensão distanciada pelo movimento. Sentir o toque nas roupas é pressentir-se tocado, apesar da morte iminente da filha de Jairo. E a mulher é um corpo que sangra e que se dispõe à cura.

7. Agrada-me que sejamos teologicamente rigorosos. Substitua-se ‘aparição’ por ‘visão’. ‘Nihil obstat’. Hoje prefiro o rigor poético [7]: o que aqui aconteceu foi uma ‘visitação’. Ou seja: na visão daquelas três crianças, fomos visitados.
E, como disse inicialmente, a graça implica esse tempo em que somos visitados, com a consciência de que deixar-se visitar implica o elemento de expectativa, como nos recorda Paul Tillich: “Não é fácil pregar cada domingo sem se elevar a pretensão de possuir Deus e de poder dispor dele. Não é fácil pregar Deus às crianças e aos pagãos, aos céticos e aos ateus, e ter de lhes explicar, ao mesmo tempo, que nós próprios não possuímos Deus, mas que o esperamos. Eu estou convencido de que a resistência ao cristianismo vem em grande parte do facto dos cristãos, abertamente ou não, erguerem a pretensão de possuir Deus e terem assim perdido o elemento de expectativa” [8].
Fátima é um lugar onde nos expomos à misericórdia de Deus, um lugar de espera… onde somos visitados. Na urdidura de tantos desencontros, nas arestas de tanta desesperança, recordo o final desse extraordinário Diário de um Pároco de Aldeia, de Georges Bernanos: “Que importa? Tudo é graça” [9].

8. Quantas vezes escutei o discurso que censura o masoquismo dos peregrinos de Fátima, as promessas que impõem sacrifício, essa espécie de catarse que mutila o corpo. Não contra-argumento. Por um lado, percebo a censura e aceito-a quando não traz o veneno do cinismo de quem se arroga de uma qualquer superioridade moral. Por outro lado, não consigo censurar esses peregrinos, essa gente despojada, ensimesmada no seu drama íntimo, para quem a soteriologia não se traduz senão numa interseção [com ‘s’ e ‘ç’: esse ponto em que dois caminhos se encontram], numa interseção e numa interceção [com ‘c’ e ‘ç’: o ato de intercetar], numa interceção e numa intercessão [com ‘c’ e ‘ss’: para que o tangível interceda no intangível].
Inquieta-me e comove-me. Tendo arriscado afirmar que Fátima é uma poética, a estas interseções, interceções e intercessões, terei de chamar humildemente sacramento da cura. Digo-o, porque era eu a criança que trazia na mão a vela a arder e ia vestido de anjo; e havia pessoas de joelhos… uns sangravam, outros choravam compulsivamente. Eu estava no vórtice do paroxismo, sem saber ainda o significado de vórtice nem o de paroxismo; sem saber ainda que essencial era a situação da filha de Jairo, a menina moribunda com doze anos; sem saber ainda que a situação da hemorroísa, há doze anos enferma, era apenas circunstancial. Só aceitando que a situação da hemorroísa era circunstancial, é que podemos dar graças pelo dom de Fátima: porque Fátima é a orla do manto, lugar de interseção, interceção e intercessão, a periferia onde acontece a cura – “A tua fé te salvou”.
Creio que só o perceberemos se aceitarmos que Fátima é uma poética e que as grandes histórias não são edificantes. Digo-o, porque era eu a criança que estava no vórtice do paroxismo; e havia pessoas que não tinham sido os primeiros convidados, pessoas que traziam no rosto a erosão das encruzilhadas. E por entre as ruínas dos corpos, uma luz parecia irromper, um traje nupcial pressentido. Através das grossas lentes dos meus óculos, aquelas pessoas pareciam curadas. Hoje, passados tantos anos, parece-me evidente: Fátima é a orla do manto, um lugar onde os peregrinos – os convidados da última hora, desta nossa desencantada 25.ª hora – procuram tocar… e acabam tocados.
Jesus está a passar, focado na casa de Jairo… e aqui, alguém segreda a si mesmo, na intimidade obscura da sua enfermidade: “Se ao menos tocar as suas roupas…”. É verdade que a narrativa não termina no versículo 34. No final, escutar-se-á esse impressivo ‘Talítha kum’. Por isso é circunstancial o fenómeno de Fátima. Neste intervalo há o toque que dirime o que medeia o tangível e o intangível; acontece o encontro e escuta-se: “A tua fé te salvou”. É circunstancial. Como não dar graças por este dom?

EDIÇÃO: José Rui Teixeira, “Dar graças pelo dom de Fátima”, in Pedro Valinho Gomes [coord.], ‘GUIA DO PEREGRINO 2017-2018 [Tempo de Graça e Misericórdia]’, Santuário de Fátima, 2017, pp. 19-30.

NOTAS:
[1] Pierre Teilhard de Chardin, ‘Hino do Universo’, Lisboa, Editorial Notícias, 1995, pp. 17-18.
[2] Cf. ‘Christos – Enciclopédia do Cristianismo’, Lisboa, Editorial Verbo, 2004, p. 388.
[3] Apud ibidem, p. 389.
[4] Seria muito interessante abordar a reciprocidade da graça a partir da perspetiva antropológica do ‘Ensaio sobre a dádiva’, de Marcel Mauss [Lisboa, Edições 70, 2001].
[5] Cf. Mt 9, 18-26; Lc 8, 40-56.
[6] A força cénica desta expressão impressionou profundamente Dostoievski, ao ponto de colocá-la segunda vez na boca de Jesus, na admirável narrativa d’O Grande Inquisidor [Fiódor Dostoievski, ‘Os Irmãos Karamazov’, Lisboa, Relógio D’Água, 2012, p. 255].
[7] Desde a perspectiva de Chantal Maillard: ‘La creación por la metáfora – Introducción a la razón-poética’, Barcelona, Anthropos, 1992.
[8] Paul Tillich, ‘The Shaking of the Foundations’, Londres, Pelican Books, 1963, p. 152.
[9] Georges Bernanos, ‘Diário de um Pároco de Aldeia’, Lisboa, Editorial Verbo, 1992, p. 239.