Em novembro de 1908, em Lisboa, Miguel de Unamuno escreve «Un pueblo suicida», um pequeno texto que integra «Por tierras de Portugal y de España» e em que descreve os portugueses como um povo de suicidas, um povo suicida, para o qual a vida não tem um sentido transcendente.
António José Saraiva escreve sobre um “novelo afetivo” que caracteriza a “personalidade portuguesa”, que implica, entre outras particularidades idiossincráticas, um sentimento de insularidade, o messianismo e a saudade, e que aparece “a observadores estrangeiros como desnorteante e paradoxal”.
E esta afirmação transporta-nos para Lisboa, numa tarde de novembro de 1908. Miguel de Unamuno, diante do Convento do Carmo, cujas ruínas góticas sobreviveram ao terramoto de 1755, desabafa: “pensaba qué terremoto íntimo, moral, amenaza este pueblo”. Depois compra três diários, lê algumas notícias, percorre as ruas da cidade e escreve: “Entre tanto van y vienen las gentes de esta ciudad cosmopolita; parecen contentas, ríen, gesticulan, acuden a sus negocios o sus distracciones. Y un satisfecho podría decirles al verlas: ‘Éste es un pueblo como todos los demás; aquí no pasa nada’. Y, sin embargo, Portugal, esta misma tierra, es un pueblo triste. Es si, un pueblo triste. Y de aquí el encanto que para algunos tiene, a pesar de la evidente trivialidad de sus manifestaciones exteriores. Portugal es un pueblo triste, y lo es hasta cuando sonríe. Su literatura […] es una literatura triste.”
O que é que Unamuno viu, pressentiu nas ruas de Lisboa? Que tristeza é essa que o bulício da cidade faria passar desapercebida ao turista distraído, que ainda assim a buscaria nas casas de fado como se de um produto regional se tratasse? O que é que faz deste povo, aos olhos de Unamuno, um povo triste mesmo quando sorri? E o que é que faz da sua literatura, uma literatura triste?
Mas Unamuno vai mais longe e escreve: “Portugal es un pueblo de suicidas, tal vez un pueblo suicida. La vida no tiene para él sentido transcendente. Quiere vivir tal vez, sí, pero ¿para qué? Vale más no vivir.”
Ainda que se trate de afirmações sem excessivas pretensões epistémicas, estamos na presença de observações contundentes sobre um povo que, particularmente desde o século XIV, abdicou da condição europeia que Castela lhe coartava e desenvolveu um certo sentimento de isolamento, porque, entre a Europa e Portugal, Castela funcionou historicamente como um deserto isolador, mais do que um espaço de ressonância e comunicação. Esse ensimesmamento, simbolicamente, nimba a sua vocação atlântica de uma vertigem suicidária: um povo tão afetivamente apegado às suas raízes, às suas origens, projeta-se numa diáspora que ainda hoje reúne quase um terço dos portugueses. E se esporadicamente buscou em França, sobretudo a partir do século XIX, o lenitivo para um persistente sentimento de orfandade, esse contacto não só não o tornou mais europeu, como acentuou, por cotejamento, a disforia da sua singularidade.