Nas páginas do meu moleskine, em Roma, no inverno de 2013… a conversar com Tolstói acerca da morte de Ivan Iliitch:

Interessam-me fundamentalmente duas coisas numa cidade: as perspetivas e os pormenores. Por vezes, aborrece-me tudo o que existe entre as perspetivas e os pormenores. Detenho-me sobre a Ponte de Sant’Angelo. Integro no meu campo de visão o Castelo [à direita] e a Basílica de S. Pedro [ao fundo], a extraordinária cúpula que Michelangelo concebeu e que não chegou a ver com os olhos. [Há outras formas de ver.] É uma perspetiva. Seria lamentável ter morrido sem ter-lhe dedicado um minuto contemplativo. Depois mergulho no emaranhado de ruas, pela Via dei Coronari até à Fontana dei Quattro Fiumi. Faço a sinestésica experiência do ocre que inunda Roma, os tons baços, entre um amarelo antigo e um vermelho esbatido, como se a cidade conservasse uma existência de terracota, de terra calcada, de pedra ferida. É outra perspetiva. Depois há os pormenores: o elefante de Bernini e o túmulo de Fra Angelico em Santa Maria sopra Minerva, a tensão entre Bernini e Borromini na Piazza Navona, o Pasquino ou uma mulher que atravessa o Campo de Fiori com o poder de incendiar um coração. Perspetiva e pormenor. A Fontana di Trevi ou o melhor café do mundo: um ‘gran caffè speciale’ no Sant’Eustachio. Pergunto se haverá em Roma tantos discípulos de Cristo quantas igrejas. Entretanto, morreu Ivan Iliitch, mas em Roma não se lê Tolstói… em Roma aprende-se o tom ocre dos dias, um tão mediterrânico elogio da vida, por dentro de uma tão intensa cumplicidade com os sulcos da morte.