Na sequência de uma conversa com o Rui Nunes, reli por estes dias essa extraordinária terceira estância de ‘Retrato em Movimento’, de Herberto Helder: “Quando se caminha para a frente ou para trás, ao longo dos dicionários, vai-se desembocar na palavra Terror”. Reli também ‘Micropaisagem’, de Carlos de Oliveira, livro que tinha lido há uns dez anos… talvez sem lhe dedicar suficiente coração.
Tenho pensado no fascínio do Rui Nunes pelo ‘pormenor’… e, tendo partido hoje para Roma, lembrei-me de um apontamento que aí escrevi nas páginas do meu moleskine no inverno de 2013. Curiosamente, relia por esses dias ‘A Morte de Ivan Iliitch’, de Tolstói:

Interessam-me fundamentalmente duas coisas numa cidade: as perspetivas e os pormenores. Por vezes, aborrece-me tudo o que existe entre as perspetivas e os pormenores. Detenho-me sobre a Ponte de Sant’Angelo. Integro no meu campo de visão o Castelo [à direita] e a Basílica de S. Pedro [ao fundo], a extraordinária cúpula que Michelangelo concebeu e que não chegou a ver com os olhos. [Há outras formas de ver.] É uma perspetiva. Seria lamentável ter morrido sem ter-lhe dedicado um minuto contemplativo. Depois mergulho no emaranhado de ruas, pela Via dei Coronari até à Fontana dei Quattro Fiumi. Faço a sinestésica experiência do ocre que inunda Roma, os tons baços, entre um amarelo antigo e um vermelho esbatido, como se a cidade conservasse uma existência de terracota, de terra calcada, de pedra ferida. É outra perspetiva. Depois há os pormenores: o elefante de Bernini e o túmulo de Fra Angelico em Santa Maria sopra Minerva, a tensão entre Bernini e Borromini na Piazza Navona, o Pasquino ou uma mulher que atravessa o Campo de Fiori com o poder de incendiar um coração. Perspetiva e pormenor. A Fontana di Trevi ou o melhor café do mundo: um ‘gran caffè speciale’ no Sant’Eustachio. Pergunto se haverá em Roma tantos discípulos de Cristo quantas igrejas. Entretanto, morreu Ivan Iliitch, mas em Roma não se lê Tolstói… em Roma aprende-se o tom ocre dos dias, um tão mediterrânico elogio da vida, por dentro de uma tão intensa cumplicidade com os sulcos da morte.