Quando o meu amigo presbítero Leonel Oliveira morreu, em novembro de 2015, herdei a sua biblioteca: centenas de livros que integrei criteriosamente entre os meus, de acordo com as áreas temáticas. Um desses livros — curiosamente um dos que em mim despertou menos interesse, até porque não fazia parte do núcleo teológico verdadeiramente diferenciado dessa biblioteca — era «Retratos de Nossa Senhora», da autoria do jesuíta Juan Rey, impresso no Porto, em 1957 [edição da Livraria Apostolado da Imprensa].
Cansado das arrumações, sentei-me a folheá-lo com uma certa displicência. Na folha de guarda, sem destinatário e com data de 14 de dezembro de 1958, uma simples dedicatória assinada. E, entre as suas páginas, um pequeno retrato com uma jovem e um bebé, presumivelmente mãe e filho; arriscaria datá-lo da década de 20 ou 30. Quem são estas pessoas? O sorriso giocôndico da mãe, o rosto ligeiramente desfocado da criança… Voltei a aconchegar o retrato entre as páginas do livro e dei-lhe um lugar de destaque na minha biblioteca, fundamentalmente por ser uma espécie de relicário de uma memória perdida.
Há uns dias, num livreiro/antiquário do Porto, numa caixa, estavam à venda dezenas de fotografias antigas avulsas, fundamentalmente retratos. Pela módica quantia de cinquenta cêntimos, o cliente costumeiro ou o turista, esse transeunte improvável, poderia levar para casa a fotografia de uma família posando feliz, de uma mulher esforçadamente fatal, de bebés que, por força da temporalidade, morreram há muito e deles talvez só reste um retrato esmaecido numa caixa com fotografias a granel.
Sim, aquela caixa é uma vala comum; o que ali está enterrado, se lhe restituímos intimidade, conserva um rumor vago e tremendo, que se esfuma invariavelmente num silêncio não menos avassalador. Ponderei comprar todos aqueles retratos, trazê-los para casa e acondicioná-los dignamente num álbum… mas isso não mudaria nada.
Persiste a consciência de que a memória é irredimível e a vida incurável. Hoje, ao escutar «Ligth in August» [2009], de Danny Norbury, repito persistentemente as primeiras palavras de «Húmus», de Raul Brandão: «Ouço sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e persiste…»