Vítor Matos e Sá é o pseudónimo de Vítor Raul da Costa Matos. Nasceu Moçambique, em 1927, e morreu em Espanha, em 1975, num acidente de viação. Licenciou-se e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Coimbra, onde professou e dirigiu o Instituto Filosófico. Como poeta, escreveu ‘O horizonte dos dias’ [1952], ‘O silêncio e o tempo’ [1956], ‘O amor vigilante’ [1962] e ‘Companhia violenta’ [1980]; colaborou nas publicações Távola Redonda, Árvore, Eros e Cadernos do Meio-Dia. Em 2000, Ana Paula Coutinho Mendes organizou a edição da sua poesia reunida: ‘Poesia de Vítor Matos e Sá’ [Porto, Campo das Letras, 2000].
Por estes dias, o Jorge Melícias partilhou comigo este poema extraordinário de Vítor Matos e Sá… que me comoveu e trouxe à memória muitos rostos:

PARA OS MEUS ALUNOS

Após tantos anos a ver-vos chegar
e a deixar-vos partir
alheios ou inquietos quanto
ao parentesco das ideias e dos atos
o direito às perguntas e a fonte
das perguntas,
gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome,
saber se estive, perto ou longe,
em vossas dúvidas. É sempre
uma questão mútua de ser.
Uma presença e não
um resultado.

Mas nem sempre soubestes que crescíamos
entre ódios, fanatismos, cobardias,
com olhos vendados pelo conforto
e o medo, com ter-se ou não ter-se
vantagens, aplausos, soluções privadas.
E como foi possível ter razão
sem ter as circunstâncias.

Agora os vossos rostos passam, firmes,
entre visão e facto, entre o amor
e a chegada de todos ao amor.
Mas também morro mais depressa agora.

Por isso gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome. E agradecer-vos a herança
da alegria. E dizer uma vez mais que é sempre
uma questão mútua de ser. Uma presença
e não um resultado.

E os vossos rostos todos
hão de ajudar-me a envelhecer
sem angústia ou vergonha
e a estar convosco na verdade
e a buscá-la juntos e a cumpri-la.