Tenho regressado por estes dias a algumas imagens da minha infância. Fui uma criança pouco fotografada. E apercebi-me da falta de qualidade de uma série de fotografias dos anos 70: desfocadas, esbatidas… uma metáfora da memória embaçada, esmaecida. Na sua superfície sobressai a natureza incurável da vida, como um larário do qual não resulta qualquer remissão.
Num ensaio intitulado: “A vida é um simulacro. Leituras de «Húmus» de Raul Brandão e «Grito» de Rui Nunes”, escrevi este capítulo:

A ESSE DESENTENDIMENTO CHAMAVA-SE PAZ [Rui Nunes]

Foi no final da década de 90 que li «O esquecido», de Elie Wiesel. Aí retive a consciência poética de que estamos habitados pela memória de Deus. É curioso que, no contexto da tradição religiosa e cultural judaico-cristã, nas suas preces, os homens peçam persistentemente a Deus que tenha memória, que se lembre; é a mesma tradição religiosa e cultural que considera Deus não uma realidade abstrata ou uma entidade cósmica indiferenciada, mas um Deus presente, comprometido com a história até ao limite desse compromisso: a “encarnação”.
A memória é, neste contexto, um atributo ontológico de Deus e, por extensão, um atributo ontológico do homem: “Lembra-te, Deus da história, que criaste o homem para que ele se recorde”. Diria que, nesta perspetiva, persiste uma intrínseca relação de causalidade entre “existir” e “recordar”. O cristianismo leva até às últimas consequências esta relação de causalidade, ao ponto de sacramentalmente fazer depender a transubstanciação de um processo de anamnese.
É o próprio Elie Wiesel que – n’«O esquecido» – situa a importância da memória na tradição judaica: “A natureza humana quer que o homem esqueça o que lhe faz mal, não é verdade? Para os Antigos, o esquecimento não era um dom dos deuses? Sem ele a vida seria insuportável, não é verdade? Sim, mas o judeu vive segundo outras regras. Para ele nada é mais importante do que a memória. É pela memória que está ligado às suas origens.
Num outro livro, Wiesel assevera que não se pode existir sem a memória. Na sua perspetiva está sempre subjacente a premissa que afirma que quem esquece a história arrisca-se a repeti-la.
Por outro lado, nas suas «Prosas apátridas», Ramón Ribeyro afirma que o homem esquece a história, não a interroga e não retira dela nenhum ensinamento, e isso porque não consegue, ao mesmo tempo, inteirar-se da história e fazê-la, pois a vida edifica-se sobre a destruição da memória: “Dir-se-ia que a história foi feita para ser esquecida”.
Estou convencido de que se trata de perspetivas complementares, apesar de – à primeira vista – parecerem antagónicas. Ribeyro insiste: “Conseguimos memorizar muitas coisas, imagens, melodias, conceitos, argumentos ou poemas, mas há duas coisas que não conseguimos memorizar: a dor e o prazer. Conseguimos, quando muito, ter a recordação dessas sensações, mas não as sensações dessa recordação. Se fosse possível reviver o prazer que nos proporcionou uma mulher ou a dor que nos causou uma doença, a nossa vida tornar-se-ia impossível. No primeiro caso converter-se-ia numa repetição, no segundo numa tortura. Como somos imperfeitos, a nossa memória é imperfeita e só nos restitui aquilo que não nos pode destruir”.
Se puséssemos Elie Wiesel a dialogar com Ramón Ribeyro, o primeiro afirmaria que não podemos viver sem a memória e o segundo argumentaria que não podemos viver com certas memórias, ou com uma memória absoluta. Wiesel diria que quem esquece a história arrisca-se a repeti-la e Ribeyro, provavelmente assentindo, diria que o homem só esquece a história porque não consegue ser historicamente no presente sem tornar a memória histórica um resíduo pretérito e, por isso [se não repete a história, porquanto ela é irrepetível], reincide nos comportamentos que a memória deveria precaver.
Talvez o esquecimento absoluto não seja uma maldição maior do que a memória absoluta. O esquecido – no horizonte, por exemplo, da doença de alzheimer – não tem quotidiano. Mas só conseguimos acordar todos os dias e assumir o quotidiano na medida em que, sem que disso nos apercebamos, esquecemos uma parte significativa do que foi o dia anterior; do mesmo modo, o segundo filho deve a sua existência a todas as recordações negativas associadas ao primeiro filho que se apagaram da memória dos pais.
Talvez esquecer a história e repeti-la por reincidência comportamental seja algo inerente à condição humana. E creio que a memória é o entendimento que temos da experiência existencial, em ‘lato sensu’. Parte daquilo que consideramos memória pessoal ou coletiva é uma construção ficcional, um entendimento, uma complexa relação de representações dinâmicas da história e da vida. Talvez por excesso de entendimento Fernando Pessoa tenha escrito no seu «Livro do Desassossego»: “A minha vida é como se me batessem com ela”. Suportar a vida é desentendê-la.