Daniel Faria nasceu num Sábado Santo, à hora da Vigília Pascal, quando já se cantavam “aleluias”. A sua primeira manhã no mundo foi um Domingo de Páscoa. E se o seu ofício foi um projeto de morrer, foi apenas porque sabia que só ao extinguir-se diria “Tudo/ O que podia ser dito/ Sobre a luz”.
Se fosse vivo, Daniel Faria teria hoje 50 anos. Não é menos difícil imaginá-lo a envelhecer do que sabê-lo morto. Sobre o que teria sido, ocorre-me o que veio a ser:

“Devo ser o último tempo
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Devo ser o último degrau na escada de Jacob
E o último sonho nele
Devo ser a última dor no quadril.
Devo ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Devo ser a véspera. Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.”


José Rui Teixeira