Devo ao Prof. Ângelo Alves — aqui, nesta casa — o primeiro contacto com Dalila Pereira da Costa, durante os meus estudos teológicos, na década de 90. Li então, entre outros, «O Esoterismo de Fernando Pessoa», «Corografia Sagrada» e «Os Instantes». Dalila era, para mim, não uma pessoa velha, mas antiga… muito antiga. Sabia-a viva e sabia que nascera em 1918, mas a sua idade era para mim algo indistinto. Dalila era antiga. Havia um rumor nos seus escritos, no modo como escrevia, qualquer coisa de remoto e um pressentimento de futuro.
Durante esses anos, Dalila mediou a minha relação com a Saudade e com a tessitura hierática e telúrica da poesia de Teixeira de Pascoaes. E a intimidade foi crescendo como uma caixa-de-ressonância para o silêncio.
Depois afastei-me, por quase dez anos. Dalila permaneceu silente numa estante da minha biblioteca. Fui adiando a possibilidade de conhecê-la pessoalmente, como quem adia um encontro para o qual não se sente preparado… não tenho qualquer outra explicação. Várias vezes o Prof. Ângelo Alves e a Prof.ª Maria João Reynaud se dispuseram a apresentar-me à Dalila, na sua própria casa, no n.º 444 da Rua 5 de Outubro. Tanto queria tê-la conhecido pessoalmente e não a conheci… e disso só eu sou culpado.
Dalila morreu no dia 2 de março de 2012, dois dias antes de completar 94 anos. Soube da sua morte depois… Dalila morrera, essa mulher-oráculo, tão antiga que a imaginara imune à morte. Nascera para mim antiga, em meados da década de 90, e morrera antiga passados uns quinze anos. Existira antiga, a Dalila, cujo nome próprio — assim mesmo, precedido de artigo definido — é um nome inteiro, substantivo.
Soube mais tarde que a casa da Rua 5 de Outubro, a biblioteca e o espólio literário e epistolar, entre outros bens, deixou-os em herança ao Centro Regional do Porto da Universidade Católica, em cuja Escola das Artes eu então professava. Em novembro de 2012, tendo havido várias tentativas de intrusão em sua casa, com o intuito de roubo, incumbiram-me de coordenar uma equipa que resgatasse a biblioteca e o espólio literário e epistolar, no sentido de salvá-lo de um iminente roubo e possível destruição.
Quando entrei na sua casa, na primeira quinzena de novembro, senti apenas a minha ausência, na medida em que era como se a Dalila impregnasse cada recanto, cada objeto, cada estante. Era uma casa habitada.
Fotografámos e identificámos estantes de livros, depois encaixotados com a referência da estante; fizemos o mesmo com outro tipo de documentos e objetos e enviámos as caixas para as instalações do Centro Regional do Porto da Universidade Católica. Em três intensos dias, trasladamos a biblioteca da Dalila.
Alguns daqueles livros e objetos estavam no seu lugar como se o habitassem há séculos. Cada coisa no seu lugar. Havia livros cujas capas e páginas estavam entranhadas na madeira das estantes, como se — por um processo de resiliência — nos livros se pressentissem saudades de ser árvore.
Independentemente do exercício de salvar aquela biblioteca e espólio, ainda hoje me pesa na consciência tê-lo feito. Nenhuma retórica atenua em mim a consciência de profanação e o sentimento de culpa. Pergunto se não teria sido preferível que um fogo esplêndido a tivesse poeticamente consumido. Seja como for, durante três dias ali me detive, como num ofício hierático, adentrado em algo muito antigo, um oráculo silenciado não pela morte, mas pelo próprio silêncio.
Não tínhamos tempo para folhear os livros, nem para analisar qualquer documento. Era outra a prioridade; mas, dentro de um envelope — ou de uma pequena caixa, já não me lembro… — havia umas fotografias que, então, me detiveram e que, depois digitalizei. É certo que tudo me impressionou naquela casa, mas nada me comoveu como aquelas fotografias, tiradas no verão de 1935, em Afife: ali estava a Dalila, com dezassete anos, refletida na superfície das águas do rio ou posando na praia, como se de uma estrela do cinema da década de 30 se tratasse. Fosse por uma evidente fotogenia [enquanto qualidade do que é fotogénico e, simultaneamente, enquanto propriedade de «gerar» luz], fosse por aquela simpatia da intuição que nos une inexplicávelmente a certas pessoas, dei por mim profundamente apaixonado pela Dalila. Eu, que era já íntimo do seu pensamento filosófico e poético, e que a concebera antiga, conhecia-a agora jovem no silêncio de fotografias com quase oitenta anos.
Regressei, então, à sua obra, com o mesmo estremecimento de perenidade e mistério. Mas uma coisa mudara: a Dalila adquirira na minha consciência um outro rosto, o rosto feliz e luminoso da sua juventude.
Dalila Pereira da Costa nasceu no Porto, a 4 de março de 1918, e morreu na mesma cidade, no dia 2 de março de 2012. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Universidade de Coimbra, em 1944. Desde a década de 70, por mais de quarenta anos, publicou uma obra que poderíamos situar na fronteira entre a filosofia e a poesia: mais de trinta títulos que a tornam uma referência incontornável não apenas no âmbito do Grupo da Filosofia Portuguesa, mas na História da Filosofia em Portugal, particularmente na sua expressão ensaística e poética, mística e profética.