Conferência pronunciada na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, no Hospital de S. João, nas VI Jornadas de Humanização, no dia 9 de abril de 2015.

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Confesso que é sempre com alguma angústia que me disponho a escrever um texto como este. Partilhar o que se escreve é sempre um exercício de exposição. E mesmo quando escrevemos sobre realidades extrínsecas, não deixamos nunca de ser o sujeito que escreve, o ponto-de-partida de qualquer narrativa. Por isso, em certo sentido, é sempre intrinsecamente que escrevemos. Mas, apesar de considerar legitimamente difíceis os equilíbrios desse exercício de exposição, acredito que o escritor é alguém capaz de cuidar a intimidade, mesmo em escritos autobiográficos, memorialísticos ou nas páginas íntimas de um diário. Além disso, não creio que a literatura seja um exercício de exposição mais arriscado do que a própria vida. Com efeito, estamos expostos enquanto vivemos e, por vezes, não menos expostos depois de morrermos. Mais introvertidos ou extrovertidos, estamos expostos quando nos exibimos e quando nos escondemos, personagens mais ou menos principais, mais ou menos secundários, dos enredos que nos cabe representar. Resta-nos cuidar a intimidade, esse último reduto da pessoa situada nas interseções de tempo e espaço a que chamamos existência, com uma certa ingenuidade pretensiosamente filosófica.
Escrevo este texto na primeira pessoa e na condição de pessoa, e com o desconforto próprio de quem conhece o perigo dessa exposição consentida. E agradeço com alguma comoção o convite para falar aqui sobre cuidar a intimidade: com efeito, nasci neste Hospital há tempo suficiente para compreender o modo como aqui a vida e a morte nos expõem, com o clarão violento da vida, da cura, com a luz vaga de uma esperança puída e com as sombras da caducidade, da recaída, da despedida, desse funéreo silêncio que nos embaça o rosto e, ocasionalmente, nos traz tão vivos à superfície do mundo exterior. Falo em mundo exterior, na medida em que na minha infância o Hospital de S. João me parecia um lugar subterrâneo.
Não me recordo de ter nascido, mas sei que quando nasci a minha intimidade foi fatalmente ferida. Fui violentamente dado à luz e é certo que disso só não me arrependo porque não me sinto culpado. É a ferocidade da vida — e não o amor — que faz com que um corpo expulse de dentro de si outro corpo. Sim… somos um corpo estranho até dentro do corpo da nossa mãe. Depois temos a infância para aprender que foi por amor que nos deram à luz. E depois temos uma vida inteira para duvidar…
Creio que a intimidade e a corporeidade são conceitos que se entranham mutuamente. A intimidade não é unicamente uma experiência espiritual. É verdade que recordo como me aterrorizava a ideia de alguém conhecer os meus pensamentos, de alguém, porventura, me saber perverso ou monstruoso por descuido da imaginação. Mas não me doía menos a exposição física, essa nudez que não é apenas estarmos nus, mas sentirmo-nos olhados com descuido… nem que seja na imagem que o espelho nos devolve.
Mas dizia: aqui nasci; aqui regressei muitos anos para consultas de oftalmologia e por essas enfermidades que, com mais ou menos gravidade, vão humanizando a nossa narrativa biográfica; aqui nasceram os meus três filhos e descobri muitos modos de morrer.
Recentemente, visitei um amigo octogenário que aqui se abeirou da morte. Não teve forças para responder aos lugares-comuns que lhe fui dizendo para evitar o desconforto do silêncio. Olhou-me ocasionalmente… talvez por compaixão. Alguém, tendo entrado na enfermaria, pediu-me que saísse para lavá-lo. E ele olhou-me como que suplicando que lhe fosse restituída a dignidade. E eu saí daqui vergado sob o peso da consciência embaçada de que há dias em que só a morte nos restitui a dignidade. Sim… num Hospital como este somos muito o que somos ainda: esse animal aflito, intimidado, sem os sinais exteriores da sua personalização, qualquer coisa gasta e sem adorno.

Confesso que ponderei escolher ‘Em Nome da Terra’, de Vergílio Ferreira, como ponto-de-partida para esta reflexão. Depois, ponderei deter-me no modo como Lipovetsky, n’’A Era do Vazio’, prodiagnosticou a pós-modernidade, esse tempo que persistentemente temos tentado compartimentar em modelos conceptuais.
É verdade que cuidar a intimidade tem muito a ver com as leituras que Lipovetsky fez dos sinais-dos-tempos, quando no princípio da década de oitenta denunciou o advento de um período onde as tendências dominantes seriam um individualismo e um hedonismo quase patológicos, uma indiferença anémica, egolatrias emocionais avulsas, o consumo compulsivo, e onde, no fim, restaria o vazio e uma solidão pandémica.
Foi, então, diagnosticado, esse “teatro discreto”, um modelo de intimismo que acabaria por destruir o sistema imunológico da intimidade. Lipovetsky não poderia conceber — há mais de trinta anos — as realidades a que hoje chamamos “redes sociais”. E, no entanto, previu um tempo em que alguém, eventualmente, pudesse considerar relevante publicar inanidades numa plataforma de comunicação que ligasse milhões de pessoas dispostas a fazer o mesmo.
Não creio que a realidade tenha intrinsecamente mudado; o que mudou foi a proporção do fenómeno e as suas potencialidades instrumentais. Também não creio que tenhamos passado de um tempo em que a intimidade tinha uma condição hierática, para um tempo onde, simplesmente, a intimidade tenha deixado de existir, como conceito e como experiência pessoal e social. Mas é evidente que houve um deslocamento de perspectiva.
Persiste o sentimento de que num passado não muito distante, abeirávamo-nos do diário íntimo de um autor como quem se abeira de um abismo de proporções inimagináveis. Uma vida guardava-se em páginas íntimas como algo que se protege, intensificando por contágio outras vidas. Entretanto, foi-se impondo uma espécie de intimismo exibicionista [ou exibicionismo intimista] em que a exposição idiossincrática foi de certo modo democratizada [ou massificada] e a intimidade passou a ser indiscriminadamente devassada, dos “reality shows” às redes sociais, da literatura de pacotilha aos pasquins que o nosso mundo hipertecnificado tornou tendencialmente globais. E, por contágio, todos sofremos a erosão da vulgaridade, dessa tão explícita violência desmedida da banalidade que contamina tudo, como escreveu Tolentino Mendonça.
Resultaria numa generalização precipitada afirmar que somos mais descuidados em relação à intimidade do que as gerações que nos precederam. Seja como for, neste novelo diagnóstico de pós-modernidade, parece-me que estamos excessivamente expostos à tentação de descuidar a intimidade, de fragilizá-la enquanto conceito e de subvalorizá-la enquanto experiência. Somos mais intimistas, mas temos menos intimidade… e temos menos intimidade essencialmente porque a descuidamos. E descuidar a intimidade, neste sentido, não implica um propósito definido, um programa de descuido intencional. Na nossa volubilidade, é por negligência que não cuidamos a intimidade e cedemos a todo o tipo de pretextos conjunturais para negligenciá-la. Seria fácil listar inúmeros processos de legitimação do desejo de protagonismo social, uma disfunção muito preocupante por estes dias. Por outro lado, importa ter em consideração a quantidade e a qualidade dos meios instrumentais de que dispomos.
Mas não são as causas e os efeitos da pós-modernidade que nos reúnem aqui hoje, ainda que essas causas e esses efeitos sejam muito importantes para uma reflexão consequente sobre o exercício de cuidar a intimidade.

Chamava a vossa atenção para um dos aspetos mais omissos no diagnóstico da pós-modernidade: a clinicalização da vida [aspeto a que alude Jean Baudrillard em ‘A Sociedade de Consumo’]. Não é algo que, à partida, possamos considerar positivo ou negativo. Com efeito, tornou-se uma realidade incontornável, possibilitada pelos avanços científico-tecnológicos do nosso tempo. E tornou-se uma necessidade dos modelos sociais que se foram impondo sem que os questionássemos com alguma exigência.
Como disse, nasci neste Hospital há quarenta anos, regressei muitas vezes doente ou com o propósito de consultas ou tratamentos, acompanhei familiares e amigos doentes… e sinto que, tendo habitado este lugar numa porção significativa do meu tempo de vida, existe uma enorme probabilidade de morrer aqui. Não quero lamentar nem condescender com essa possibilidade, quero simplesmente constatá-la… sinal-dos-tempos, a clinicalização da vida.
Com efeito, não me agradam os discursos que se autocomprazem com regressões passadistas e que tendem a sobrevalorizar pequenas porções do passado que o tornam falaciosamente preferível ao presente. Podemos desenvolver uma poderosa retórica em torno desta questão, mas prefiro viver na pós-modernidade, com tudo o que essa experiência existencial implica, do que viver no século XIX sem antibióticos… ou seja: prefiro uma sociedade clinicalizada a uma sociedade em que a generalidade das pessoas não têm acesso a cuidados médicos. No entanto, este argumento não pode, nem deve constranger as nossas interrogações sobre esta sociedade clinicalizada.
Curiosamente, o termo “clínica” remete-nos para os termos gregos “klinike” [que se refere aos cuidados médicos a um doente acamado] e “klinicos” [relativo ao leito], que derivam do verbo “klino”: “inclinar-se”. Por seu lado, hospital provém etimologicamente do latim “hospitale”, que significa “casa de hóspedes” e que remete mais para o conceito de hospitalidade do que para o sentido de prestação de cuidados médicos que foi historicamente adquirindo.
Um e o outro termo possibilitariam uma reflexão sobre cuidar a intimidade, ainda que por caminhos diversos, ocasionalmente cruzados. Poderíamos começar pelo doente e pela sua condição. Prefiro condição a estatuto… estatuto remete para os direitos e deveres do doente que, independentemente da sua importância, terminam afixados nas paredes das enfermarias e em lugares de passagem, em cartazes a imitar os dez mandamentos.
Não é fácil descrever o que sente alguém que, na condição de doente, entra consciente num Hospital como este. Não é fácil exprimir o desamparo e a apreensão, independentemente da gravidade da sua situação; a solidão e um certo sentimento de abandono, independentemente da companhia. Não sei como dizer que, na condição de doente, nos sentimos simultânea e paradoxalmente expostos e invisíveis… numa maca ou num banco de corredor, esquecidos num qualquer compartimento despersonalizado ou em contextos hospitalares que chegam a adquirir a feição de paroxismo.
A isto soma-se a percepção do tempo. Costumo explicar aos meus alunos que há o tempo cosmológico, o tempo geológico, o tempo biológico… e que, entre a abstração e a concretude, o que mais demora a passar é o tempo hospitalar. O tempo… de espera: as triagens, as urgências, os blocos operatórios, os recobros, os internamentos. E nestes processos, há muita humanidade que se desperdiça, há mesmo muita humanidade que não se recupera…
Falamos de doentes, no geral, mas talvez valesse a pena lembrar a condição de parturiente e de recém-nascido. Poderia contar como — há alguns anos — a minha esposa, depois de ter um dos nossos filhos, ficou numa maca no corredor do serviço de obstetrícia, protegida — ela e a criança recém-nascida, assim como muitas outras parturientes e muitas outras crianças recém-nascidas — por biombos. Creio que as pessoas esforçaram-se por perceber que as condições não eram as ideais por força das circunstâncias e que aquele era, de algum modo, o preço a pagar no presente por melhores condições no futuro. Mas estamos a falar de cuidar a intimidade… e se é verdade que este processo de clinicalização da vida contribuiu para a diminuição extraordinária da mortalidade infantil [basta lembrar que há cem anos, morria uma em cada cinco crianças portuguesas no primeiro ano de vida], por outro lado, sermos cada vez mais pobres em relação à experiência afetiva e simbólica dos lugares é consequência de nascermos assim, desterritorializados, em espaços que, por melhores condições clínicas que disponham, são despersonalizados. Não importa a retórica ou a valoração que façamos sobre esta realidade. É uma evidência: a nossa vida tem menos referenciais e isso resulta num sistema de referências iniludivelmente mais pobre.

Mas se todo este contexto me deixa apreensivo, não posso negar o mal-menor [ou o bem-maior, de acordo com a perspetiva] que a clinicalização da vida representa para os doentes em geral e para as mulheres que aqui vêm dar à luz os seus filhos, sem que se enquadrem em qualquer tipologia de pessoa doente.
Falava da condição do doente, esse animal aflito, intimidado, frágil, desamparado, mesmo quando a sua situação clínica não inspira preocupações excessivas. Na verdade, quando falamos em cuidar a intimidade, estamos fundamentalmente a falar em respeitar a dignidade da pessoa doente. É interessante evocar aqui o sentido de hospitalidade… etimologicamente inerente a um lugar como este. Ou a pessoa doente que aqui se acolhe tem a dignidade de um hóspede, ou então deixamos de chamar hospitais a estes lugares que têm todo o tipo de funções [e disfunções] clínicas, mas não servem para acolher pessoas.
E isso implica necessariamente a condição daqueles que trabalham nos hospitais, particularmente os enfermeiros e os médicos. Uns e outros são os principais responsáveis por cuidar a intimidade: cuidar a sua própria intimidade, o que implica defender a vida pessoal para além destas tantas paredes e regressar diariamente ao mundo exterior [tenho amigos que trabalham aqui há tanto tempo que acabaram por perder a noção do mundo exterior e das proporções desse mundo]; por outro lado, cuidar a intimidade da pessoa doente, o que implica delimitar o seu espaço; procurar conhecê-la sem intromissões e olhá-la cuidadosamente, não como um objeto estragado, mas clinicamente, ou seja: inclinando-se sobre essa pessoa existencialmente ferida.
Confesso que, na condição de doente, não preciso que o meu médico seja meu amigo… não venho ao hospital para socializar. Preciso que o meu médico tenha essencialmente duas virtudes: seja um bom médico e seja um médico bom, que tenha os conhecimentos científicos indispensáveis e a bondade de um humanista que saiba afastar-se de dois perigos. O primeiro: uma filantropia “kitsch” muito na moda por estes dias, entre ‘A Sociedade do Espetáculo’ de Guy Debord e ‘A Civilização do Espetáculo’ de Vargas Llosa. O segundo perigo: uma filantropia misantrópica, como a daquele médico de ‘Os Irmãos Karamazov’, de Dostoievski, que dizia: “Eu amo a humanidade mas espanto-me a mim mesmo: quanto mais amo a humanidade em geral, menos gosto das pessoas em particular, ou seja, em separado, como indivíduos. Frequentemente nos meus sonhos, chegava a desígnios apaixonados ao serviço da humanidade e teria até talvez aceitado a cruz pelas pessoas, se isso de repente fosse de algum modo exigido; e no entanto não sou capaz de viver dois dias seguidos com qualquer outra pessoa no mesmo quarto, como sei por experiência. Basta alguém estar perto de mim, e já a sua personalidade oprime o meu amor-próprio e restringe a minha liberdade. Num dia posso passar a odiar o melhor dos homens: odeio um porque se demora muito tempo a almoçar, outro porque está constipado e não para de se assoar. Torno-me inimigo das pessoas assim que elas me tocam. Em contrapartida, acontecia sempre que, quanto mais odiava as pessoas em particular, mais ardente se tornava o meu amor à humanidade em geral”.
Visto isto, confesso que às vezes temo que tenhamos hoje poucos médicos e muitos técnicos de medicina. Admito que o nosso sistema de ensino e as nossas faculdades de medicina possam estar a fazer um bom trabalho técnico-científico, mas tenho dúvidas em relação à formação humanista que proporcionam. Ou talvez esteja a conceber ingenuamente a profissão de clínico, muito associada a essa missão quase hierática de se inclinar sobre alguém enfermo e procurar restituir-lhe a saúde ou, pelo menos, ser um lenitivo para o seu sofrimento.

Não basta tratar o doente pelo nome… mas não se tratando de uma condição suficiente, essa não deixa de ser uma condição necessária. Com efeito, o doente, seja criança ou idoso, particularmente nos internamentos mais prolongados, está sujeito a um processo de despersonalização, seja pela ausência das pessoas que circulam na sua área de conforto, seja pelo distanciamento dos seus espaços vitais, particularmente os domésticos, das suas roupas, dos pequenos objetos pessoais que integram o seu quotidiano.
Depois há todo o contexto de um Hospital com estas dimensões e condições gerais. E há problemas que não se resolvem apenas porque sentimos que seria bom resolvê-los… Tenho perguntado a várias pessoas por que motivos escolhem hospitais privados e a generalidade dos argumentos não se prendem com a qualidade da prestação de cuidados médicos, mas com a intimidade: as pessoas, podendo, compram intimidade nas instituições clínicas privadas.
Seja como for, ninguém sai incólume de uma experiência de doença grave, de um internamento prolongado, do desgaste humano que, pela perversidade mecânica do sistema, impede de cuidar a intimidade. E, entre as cicatrizes que muitos doentes levam consigo, as psicológicas não são menos impressivas do que as físicas. Curiosamente, se o doente nunca se esquece de quando a sua dignidade foi respeitada, também nunca se esquece de quando a sua dignidade foi desrespeitada. Porque, na fragilidade da sua condição, o doente nunca vê o médico apenas como um funcionário do sector da saúde, que exerce a medicina do mesmo modo que poderia ter qualquer outra profissão. Mais: a nossa sociedade vendeu-nos a ideia de que a ciência e a tecnologia evoluíram de tal maneira que torna-se difícil aceitar que possamos morrer num hospital. E, no entanto, apesar de tantos avanços e alguns recuos, continuamos a morrer nos hospitais, mais velhos e não necessariamente com mais dignidade.
Por vezes ocorre-me que cuidar da vida a todo o custo acarreta o risco de já não cuidar da vida. Digo-o, porque sinto que a vida orgânica reduzida aos escassos sinais vitais que uma máquina artificialmente suporta, não guarda uma porção infinitesimal do esplendor de uma árvore. Se a pessoa não habita o corpo, para que serve o corpo? E o respeito por uma morte com dignidade não pode ser menor do que o respeito pela dignidade da vida.

Em 1983 [no mesmo ano em que Lipovetsky publicou ‘A Era do Vazio’], os médicos que aqui acompanharam a doença do meu avô paterno permitiram que ele fosse morrer a casa, na cama do seu quarto, cercado pelos seus… e isso é cuidar a intimidade: não permitir, podendo, que um Homem que prezara tanto a sua dignidade e que fora senhor de si mesmo até quando o peso de um cancro lhe esmagou o corpo, morresse sozinho na enfermaria de um hospital, sem que ninguém lhe amparasse essa tão irredimível solidão inerente à morte.
E essa é também uma consequência da tendência para a clinicalização da vida, na medida em que os doentes são afastados da convivência social, mesmo na iminência da morte, criando assim condições para que hoje, na nossa sociedade, a morte seja um tão poderoso tabu.
Creio que foi pela intimidade que a minha mãe me pediu, nove meses antes de morrer, vítima de cancro, que não a trouxéssemos mais ao Hospital, fosse qual fosse a evolução da doença. Mais tarde, pediu-me que não permitíssemos que morresse aqui. Foi pela intimidade, pelo recolhimento… pelo respeito pela dignidade da sua vida, que deixámos que morresse na sua cama, no seu quarto, na companhia de quem lhe era próximo.
Perdoem se não cuido a minha intimidade quando digo que neste mesmo edifício onde eu nasci e onde nasceram os meus filhos, com o propósito de salvar a vida da minha mãe, a perna direita foi-lhe amputada e três anos depois, à hora da morte, o seu corpo guardava mais cicatrizes do que anos de vida. E, para lá da luz vaga de uma esperança puída e das sombras da caducidade, da recaída, da despedida… foi por cuidar a intimidade que esse silêncio com que a morte nos embaça o rosto foi menos funéreo.

Vivemos numa sociedade em que uma certa fragilidade emocional é causa e efeito de uma espécie de intimismo massificado, esse teatro tendencialmente mais indiscreto, potenciado por meios instrumentais que seriam inimagináveis há alguns anos. E, neste novelo social, cuidar a intimidade torna-se premente. E por se tratar de um fenómeno pandémico, torna-se ainda mais premente cuidar a intimidade em contexto hospitalar. Por isso é tão importante a reflexão que resultar destas VI Jornadas de Humanização.
Recordo — ao jeito de epílogo — as palavras de Raul Brandão, impressas no primeiro volume das suas ‘Memórias’. Não se referem a parturientes, nem a crianças hospitalizadas, nem a idosos doentes… nem sequer têm a pretensão de inverter a tendência para a clinicalização da vida; mas resultam num aforismo improvável sobre a intimidade plenamente restituída, súmula do que sinto… porque se já não posso não ter nascido aqui, posso ainda desejar que este não seja o lugar da minha morte. Trata-se de um fragmento de março de 1909, onde se lê: “Um velho tem direito a morrer entre árvores, em plena natureza. Os bichos, quando sentem aproximar-se o fim, procuram um buraco para se esconder… São mais felizes.”

Pintura: ‘O Jardim da Morte’ [1896] | Hugo Simberg [1873-1917]