Durante a minha infância, nas manhãs de sábado, o meu avô paterno conduzia-me pela mão à Feira dos Pássaros, na Rua da Madeira, junto à Estação de S. Bento. Numa dessas manhãs, miticamente guardada na minha memória, afeiçoei-me a um bico-de-lacre. Percebendo-o, o astuto vendedor chamou-me a sopesá-lo. Lembro-me de mim como se me olhasse por cima do ombro do vendedor: o bico-de-lacre na mão esquerda e a mão direita ocasionalmente desdobrada em espanto, como suplicando ao meu avô que mo comprasse.
Com a voz por baixo da minha inquietação, o avô António perguntou-me para que queria o pássaro. “Para libertá-lo” — respondi. “Se o libertares, morre” — disse-me. O vendedor arregalou os olhos para o meu avô, sorrindo, como incentivando-o a comprar. Tinha um rosto boleado e um sorriso umbroso — só muito mais tarde me apercebi que poderia ser a reencarnação de Melquíades, o cigano de barba ferina e mãos de pardal-dos-telhados de «Cem anos de solidão».
Não me lembro quanto custou o bico-de-lacre. E para não senti-lo meu, entristeci aquele momento. Chamei Bico-de-Lacre ao bico-de-lacre para não me afeiçoar a um nome.
Regressei a casa com a caixa entre as mãos como se transportasse um objeto hierático, com vida por dentro: o bico-de-lacre vivo, entretanto mais sereno ou exausto da inquietação de ser transportado numa caixa fechada com pequenos furos com o propósito de entrar o ar, não a luz.
Tendo chegado a casa dos meus avós, descemos ao quintal, desnivelado em relação à rua. O avô António foi buscar uma velha gaiola à arrecadação. Sentámo-nos no degrau de pedra que demarcava o tanque. Poisou a gaiola junto aos meus pés. “O que queres fazer?” — perguntou-me. “Libertá-lo” — disse-lhe. “Matá-lo” — pensei angustiado. E abri a caixa até ter um ângulo que permitisse que a mão esguia coubesse no escuro interior e assim pudesse sentir — ou pressentir — o bico-de-lacre. Agarrei-o, prendendo-o sem apertar. Depois, de dentro da caixa, retirei a mão cheia do pássaro. E abri-a.
O meu avô levantou-se a custo, como se lhe doessem os músculos ou lhe pesassem os ossos, e disse-me sem agravo ou convicção: “Talvez aprenda a viver em liberdade”.
Sorri silenciosamente e sem esperança. A morte pareceu-me, apesar de tudo, um preço razoável para a liberdade. Há premissas como esta, na vida, que aprendemos de uma vez para sempre.

Ilustração: Joanna Concejo