Numa manhã de domingo, em 2016, a caminho da Capela de Fradelos [onde então presidia à celebração da Palavra], num passeio junto a Arca d’Água, vi este homem que, para além dos sacos, trazia uma Mona Lisa na mão esquerda. Só tive tempo de abrandar, baixar o vidro e fotografá-lo através da janela.
Havia uma Mona Lisa no hall de entrada da casa da minha infância. Cresci sob o seu olhar, com o desamparo próprio de quem se afeiçoa a algo à força da coexistência. Regressei recentemente ao Louvre e, na ala onde se ombreiam e acotovelam os mestres italianos, apercebi-me desapaixonadamente que basta uma pintura de Leonardo para apodar de redundante tudo o resto. É uma questão de perspetiva e cotejamento.
Naquela manhã de domingo, tão longe do Louvre, este portuense — talvez dirigindo-se a uma qualquer feira de artigos ‘kitsch’ — lembrou-me Vincenzo Peruggia, que no dia 22 de agosto de 1911 roubou a Mona Lisa com uma dignidade excêntrica.
Há instantes assim, como a vida, prosaicos e desfocados.