Entre os dias 2 e 5 de julho de 2017, a Cátedra Poesia e Transcendência organizou — no Centro Regional do Porto da Universidade Católica — o Colóquio Internacional Poesia e Transcendência: NASCIDAS DO SANGUE DAS PALAVRAS, sobre vozes e universos poéticos femininos. Durante os quatro dias foram apresentadas quinze conferências ou comunicações, que se abeiraram do diálogo entre poesia e transcendência na vida e na obra de mulheres poetas como Judith Teixeira, Sophia de Mello Breyner Andresen, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge, a italiana Cristina Campo, a uruguaia Marosa di Giorgio, a americana Sylvia Plath, entre tantas outras.
A abertura do Colóquio coube à Prof.ª Doutora Isabel Braga da Cruz [presidente do Centro Regional do Porto da UCP] e a mim [na condição de diretor da Cátedra Poesia e Transcendência]. Entre as conferências de Luís Adriano Carlos e de María Negroni [Argentina], foram apresentadas doze comunicações: Ana Paixão, Pedro Sena-Lino, Eleonor Castilho, Miriam Reyes [Espanha], Daniela Camacho [México], Martinho Soares, José Tolentino Mendonça, Hélder Moreira, José Pedro Angélico, Fernando de Castro Branco, Jorge Teixeira e Henrique Manuel Pereira. Eu apresentei uma conferência sobre Judith Teixeira, no dia 3 de julho. O Bispo do Porto, D. António Francisco dos Santos, acompanhou-nos no encerramento do Colóquio, que o José Marques e o Luís Branco secretariaram com uma competência e generosidade notáveis.
Durante estes dias, foram apresentados vários livros de poesia, entre os quais se destacam: «Arte e Fuga» de María Negroni, «Espelho negro» de Miriam Reyes e «Experiência Butoh» de Daniela Camacho, os três traduzidos pelo Jorge Melícias, em edição bilingue, com a chancela da Cosmorama Edições.
O meu discurso de abertura terminou com um texto que Sophia de Mello Breyner Andresen leu há 52 anos, no dia 11 de julho de 1964, no almoço promovido pela Sociedade Portuguesa de Escritores, por ocasião da entrega do Grande Prémio de Poesia:

“A coisa mais antiga de que me lembro é de um quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objetividade do meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor da presença das coisas. E também a reconheci, intensa, atenta e acesa na pintura de Amadeu de Sousa Cardoso. Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.
Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real ficou preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.
E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é desde sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética. Vemos que no teatro grego o tema da justiça é a própria respiração das palavras. Diz o coro de Ésquilo: «Nenhuma muralha defenderá aquele que, embriagado com a sua riqueza, derruba o altar sagrado da justiça.» Pois a justiça se confunde com aquele equilíbrio das coisas, com aquela ordem do mundo onde o poeta quer integrar o seu canto. Confunde-se com aquele amor que, segundo Dante, move o Sol e os outros astros. Confunde-se com a nossa confiança na evolução do homem, confunde-se com a nossa fé no universo. Se em frente do esplendor do mundo nos alegramos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão. Essa lógica é íntima, interior, consequente consigo própria, necessária, fiel a si mesma. O facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência.
A moral do poema não depende de nenhum código, de nenhuma lei, de nenhum programa que lhe seja exterior, mas, porque é uma realidade vivida, integra-se no tempo vivido. E o tempo em que vivemos é o tempo duma profunda tomada de consciência. Depois de tantos séculos de pecado burguês a nossa época rejeita a herança do pecado organizado. Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona, a poesia do nosso tempo diz: «Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres.» Há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema e que não pode aceitar uma ordem falsa.
O artista não é, nunca foi, um homem isolado que vive no alto duma torre de marfim. O artista, mesmo aquele que mais se coloca à margem da convivência, influenciará necessariamente, através da sua obra, a vida e o destino dos outros. Mesmo que o artista escolha o isolamento como melhor condição de trabalho e criação, pelo simples facto de fazer uma obra de rigor, de verdade e de consciência, ele irá contribuir para a formação de uma consciência comum. Mesmo que ele fale somente de pedras e de brisas, a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência, mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.
Eis-nos aqui reunidos, […] por aquilo que o padre Teilhard de Chardin chamou a nossa confiança no progresso das coisas. E tendo começado por saudar os amigos presentes quero, ao terminar, saudar os meus amigos ausentes: porque não há nada que possa separar aqueles que estão unidos por uma fé e por uma esperança.”

Fotografia: José Tolentino Mendonça e María Negroni [Centro Regional do Porto da UCP, Edifício Américo Amorim, 4 de julho].