Em julho de 1914, mês em que eclode a Primeira Guerra Mundial, Mário de Sá-Carneiro tem 24 anos; tinham já sido publicados os livros «Dispersão» e «A Confissão de Lúcio»[1]. No dia 13 desse mês, o jornal «República» imprime a resposta do jovem poeta a um inquérito sobre o mais belo livro “dos últimos trinta anos”. Mário de Sá-Carneiro escolheria aquele que, no seu entendimento, era o mais belo livro português publicado entre 1884 e 1914.
Mesmo que se circunscrevesse à poesia, não lhe faltavam opções: Gomes Leal tinha publicado «Claridades do Sul» em 1885; no ano seguinte foram impressos os «Sonetos Completos» de Antero de Quental e, em 1887, Silva Pinto publicou «O Livro de Cesário Verde»; «Oaristos», de Eugénio de Castro, foi impresso em 1890, dois anos antes da edição do «Só», de António Nobre; «Fel», de José Duro, data de 1898, o mesmo ano da publicação d’«O Jardim da Morte», de Júlio Brandão. Em 1914, poetas como Teixeira de Pascoaes e João Lúcio tinham já publicado parte significativa das suas obras.
Eis a resposta de Sá-Carneiro:

“À minha vibração emocional, a melhor obra de Arte-escrita dos últimos trinta anos [que a Arte timbra-se para os nervos a vibrarem e não para a inteligência medi-la em lucidez] é um livro que não está publicado – seria com efeito aquele, imperial, que reunisse os poemas inéditos de Camilo Pessanha, o grande ritmista. Ouvindo pela primeira vez dos seus versos, fustigou-me sem dúvida uma das impressões maiores, mais intensas a Ouro e gloriosas de Alma, da minha ânsia de Artista. Rodopiantes de Novo, astrais de Subtileza os seus poemas engastam mágicas pedrarias que transmudam cores e músicas, estilizando-as em ritmos de sortilégio – cadências misteriosas, leoninas miragens, oscilantes de vago, incertas de Íris. Pompa heráldica, sombra de cristal zebradamente roçagando cetim…
No entanto, para falar de obras impressas, citarei como preferidas o «Só» de António Nobre, nas suas ternuras de pajem, saudades de luar, febres esguias – e ainda, frisantemente, o livro futurista de Cesário Verde, ondulante de certo, intenso de Europa, zig-zagueante de Esforço.”[2]

Apesar de ser notável que Mário de Sá-Carneiro tenha escolhido o «Só» de António Nobre e «O Livro de Cesário Verde», estas escolhas não deixam de ser previsíveis se tivermos em consideração o que tanto Cesário Verde como António Nobre representaram para os poetas do princípio do século XX, independentemente da pluralidade de tendências literárias que emergiram nesse contexto histórico-cultural.
Curiosamente, se as primeiras edições tiveram tiragens limitadas[3], as segundas edições destes livros tiveram um grande impacto: em 1898 foram impressos três mil exemplares do «Só»[4] e, em 1901, 700 exemplares d’«O Livro de Cesário Verde»[5]. Em 1914, quando Mário de Sá-Carneiro escolhe estes como os dois mais belos livros publicados em Portugal desde 1884, já tinham sido impressas as suas terceiras edições.
Significativamente improvável é a escolha desse outro livro – “imperial” – que não estava ainda publicado: um livro que reunisse os poemas inéditos de Camilo Pessanha. Só em 1920, por iniciativa de Ana de Castro Osório, são reunidos trinta poemas numa edição sóbria, intitulada «Clepsidra»[6]. E apesar de apenas seis desses poemas serem inéditos, Mário de Sá-Carneiro põe fim à sua vida em abril de 1916, alguns meses antes da publicação [em dezembro desse mesmo ano] de 16 poemas de Camilo Pessanha no primeiro e único número de «Centauro»[7]. Ou seja: Mário de Sá-Carneiro, em 1914, apesar de ter uma visão fragmentária da poesia de Camilo Pessanha, não hesita em considerar o seu livro [seis anos antes da sua impressão] o mais belo dos últimos trinta anos.

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[1] Apesar de ter impresso o ano de 1914 na capa e no frontispício, «A Confissão de Lúcio» foi escrito entre 1 e 27 de setembro de 1913 e ficou impresso [na Tipografia do Comércio] no dia 1 de novembro desse ano. O mesmo acontece com «Dispersão»: impresso o ano de 1914 no frontispício, o livro foi composto e impresso na Tipografia do Comércio em 1913, enquanto a capa [também de 1913], da autoria de José Pacheco, foi fotografada e impressa nas Oficinas da «Ilustração Portuguesa».
[2] Mário de Sá-Carneiro, “Resposta a um Inquérito”, in «Verso e Prosa» [edição de Fernando Cabral Martins], Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 647.
[3] A 1.ª edição d’«O Livro de Cesário Verde», impressa em Lisboa [Tipografia Elzeviriana, Rua do Instituto Industrial, 23 a 31], em 1887, teve uma tiragem de 200 exemplares. A 1.ª edição do «Só» de António Nobre, impressa em Paris [Léon Vanier, Éditeur, Quai Saint-Michel, 19], em 1892, teve uma tiragem de 230 exemplares.
[4] Lisboa, Guillard Aillaud & C.ª [Rua Áurea, 242, 1.º], 1898. Como a família se opunha à sua reedição, a procura de exemplares desta 2.ª edição inflacionou drasticamente o preço do livro. Em 1913, a Livraria Aillaud e a Renascença Portuguesa reeditaram-no. Em 1921 é impressa a 4.ª edição. Venderam-se cerca de vinte mil exemplares do Só até 1930.
[5] Lisboa, Manuel Gomes, Editor [Rua Garrett, 61], 1901. A 3.ª edição seria impressa em 1911 e, a 4.ª, em 1919.
[6] Lisboa, Edições Lusitânia [Tipografia da Travessa da Espera, 26], 1920. Sobre a história editorial da «Clepsidra», cf. Barbara Spaggiari, “Introdução”, in Camilo Pessanha, «Clepsidra e outros poemas», Porto, Lello Editores, 1997, pp. 16-22.
[7] Cf. “Poemas Inéditos de Camilo Pessanha”, in «Centauro», n.º 1, Ano I – 1916 [out./dez.], pp. 13-31.