Em 2014 comprei um raríssimo exemplar de ‘O Chiado’, publicação impressa no verão de 1924, dirigida por João Ameal e Luís d’Oliveira Guimarães. Trata-se de um número “specimen”, um “número programa” desta curiosa iniciativa editorial assim apresentada pelos seus editores:

“Há vários chiados no Chiado. Há, primeiro, o chiado da manhã – esperto, cinematográfico, anónimo, bulício de corpos, farândola de destinos – com uma grave e emotiva sugestão de atividade humilde. Há, depois, o chiado quase deserto do meio-dia às duas – o chiado-intervalo, esperando que Lisboa almoce para que Lisboa passeie. A seguir, o chiado instável, indeciso das três às quatro – mulheres que desfilam, no drama de fazerem as suas compras nas lojas do centro; homens que o interesse agita ou que o dever orienta; gente que passa, que passa, que passa continuamente, sem parar em parte nenhuma. Por fim, o chiado máximo, o chiado das cinco horas e dos cinco sentidos, ‘match’ de luxos, arena de ‘flirts’, esplendor de pastelarias vibrantes. Depois outro intervalo – o jantar. E, no epílogo, já sobre os arcos voltaicos acesos, o chiado da conversa, da má-língua, dos grupos irónicos, dos noctâmbulos. Esta revista, que se chama ‘Chiado’ – chiado maiúsculo – quer ser a síntese de todos esses chiados quotidianos – a síntese, o corolário, a anedota – e, sobretudo, o boato. Quer acompanhar o Chiado, desde o cortejo luminoso da manhã até à plenitude mundana da tarde – e até à malícia crítica da noite. Quer ser a costureira que vai para o atelier, o político que vai para o Terreiro do Paço, a mulher esbelta que vai para o chá, o homem desocupado que vai para a porta das tabacarias – e o intelectual, é claro, que estaciona à esquina da Bertrand e junto às vitrinas da Portugal-Brasil. Será isto um programa? Se acham que é, tenham, porém, a certeza duma coisa: é que é um programa alterado por todos os motivos imprevistos. Tanto mais que o nosso principal motivo – é o próprio imprevisto, que é a grande atração, a grande sedução da Vida…”

Hoje senti saudades dess’A Brasileira… que era a “Câmara dos Deputados” e a “Academia” desse “estado livre” que era o Chiado, presidido pelo “erudito e boémio Gualdino Gomes, esteio septuagenário da má-língua local”, como escreveu o mestre José-Augusto França [ler, a este propósito: ‘Os Anos Vinte em Portugal’, Lisboa, Presença, 1992, pp. 82-85].
Lembrei-me ainda das palavras de George Steiner: “a Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. […] Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da ideia de Europa” [‘A Ideia de Europa’, Lisboa, Gradiva, 2005, p. 28]. Mas isso era no tempo em que havia uma ideia de Europa.

Pintura: «Auto-retrato num grupo» [1925] | Almada Negreiros [1893-1970]