No dia 15 de abril de 2016, no contexto do centenário da morte de Mário de Sá-Carneiro, apresentei a conferência: “Qualquer coisa de intermédio. Da estesia à astenia: o sono abúlico, a morte e outras derivas intertextuais na poesia de Mário de Sá-Carneiro”, no Colloque international “Paris, Mário de Sá-Carneiro et les autres”, promovido pelo Centre de Recherches Interdisciplinaires sur les Mondes Ibériques Contemporains [Études Lusophones], na Université Paris-Sorbonne.

Acabou de ser publicado em Paris, com a chancela das Éditions Hispaniques, o livro Paris, Mário de Sá-Carneiro et les autres, edição organizada pela Maria Araújo da Silva e pelo Fernando Curopos.
Aí se imprime o meu ensaio: “Qualquer coisa de intermédio. Da estesia à astenia: o sono abúlico, a morte e outras derivas intertextuais na poesia de Mário de Sá-Carneiro”, do qual transcrevo aqui o EPÍLOGO:

No final de março de 1916, Mário de Sá-Carneiro escreve a Fernando Pessoa, de certo modo justificando o seu suicídio. Trata-se de uma carta desconcertante, uma daquelas cartas de despedida que guarda algo que “ninguém sabe ao certo”:

“Meu querido Amigo,
A menos de um milagre […], o seu Mário de Sá-Carneiro tomará uma forte dose de estricnina e desaparecerá deste mundo.
É assim tal e qual – mas custa-me tanto a escrever esta carta pelo ridículo que sempre encontrei nas ‘cartas de despedida’…
Não vale a pena lastimar-me, meu querido Fernando: afinal tenho o que quero: o que tanto sempre quis – e eu, em verdade, já não fazia nada por aqui… Já dera o que tinha a dar.
Eu não me mato por coisa nenhuma: eu mato-me porque me coloquei pelas circunstâncias – ou melhor: fui colocado por elas, numa áurea temeridade – numa situação para a qual, a meus olhos, não há outra saída. Antes assim. É a única maneira de fazer o que devo fazer.
Vivo há 15 dias uma vida como sempre sonhei: tive tudo durante eles: realizada a parte sexual, enfim, da minha Obra – vivido o histerismo do seu ópio, as luas zebradas, os mosqueiros roxos da sua Ilusão.
Podia ser feliz mais tempo, tudo me corre, psicologicamente, às maravilhas: mas não tenho dinheiro. […]
Pelo mesmo correio (ou amanhã) registadamente enviarei o meu caderno de versos que você guardará e de que você pode dispor para todos os fins como se fosse seu. Pode fazer publicar os versos em volume, em revistas, etc.
Deve juntar aquela quadra: ‘Quando eu morrer batam em latas’, etc.
Perdoe-me não lhe dizer mais nada: mas não só me falta o tempo e a cabeça como acho belo levar comigo alguma coisa que ninguém sabe ao certo, senão eu. Não me perdi por ninguém: perdi-me por mim, mas fiel aos meus versos:

Atapetemos a vida
Contra nós e contra o mundo…

Atapetei-a sobretudo contra mim – mas que me importa se eram tão densos os tapetes, tão roxos, tão de luxo e festa… […]
Todo o meu afeto e a minha gratidão por você, meu querido Fernando Pessoa, num longo, num interminável abraço de Alma.

O seu, seu
Mário de Sá-Carneiro”

No dia 26 de abril de 1916, Mário de Sá-Carneiro suicida-se em Paris. Foi enterrado no Cemitério de Pantin, no dia 29 de abril. Em 1949 os seus ossos foram dispersos na vala comum do cemitério, mais de 50 anos depois dos versos de António Nobre:

“Os quartos, meu Senhor, estão tomados,
Mas se quiser na vala (que é de graça…)
Dormem, ali, somente os desgraçados,
Têm bom dormir… bom sítio… ninguém passa…”

Estésico, disfórico, asténico: perante os seus olhos intersecionistas abriu-se “o vórtice em que as imagens se tornam outras imagens, outras vozes. Um carrossel, onde volteiam vislumbres, ápices, sombras, indícios de oiro”.

PDF: Qualquer coisa de intermédio