Há uns dias tinha de “matar tempo” e fui matá-lo na livraria de uma grande superfície comercial. Tinha de matar tempo ou “fazer horas”, expressão também muito curiosa, até porque frequentemente fazemos horas enquanto matamos tempo.
Passei os olhos pelas capas dos livros em destaque nos escaparates: capas coloridamente apelativas, títulos gongóricos em alto-relevo, autocolantes promocionais. A culinária a ombrear com a felicidade, e tudo em formato de livro. Ali estava a 6.ª edição d’«O meu plano do bem», de Isabel Silva, que aparentemente é a jovem feliz que figura na capa e que, tendo nascido em 1986, é apresentadora de reality-shows televisivos. Na capa lê-se ainda: “Conheça as minhas receitas, os meus hábitos e exercícios para ter uma vida mais saudável”. Apercebi-me que «O meu plano do bem» é um livro sem pretensões soteriológicas.
Ao seu lado, uma série de publicações com títulos bem sugestivos: «Comer e amar em Paris – uma história de amor com receitas», «Corra pela sua felicidade – corrida ao ar livre e mindfulness» e «Ser feliz não é caro», livro que – de acordo com os autocolantes coloridos na capa – inclui mais de trezentos euros em vales de desconto e permite economizar até seis mil euros por ano. Tudo isto ganha proporções de paroxismo diante do best-seller «Vai correr tudo bem!», de Eder & [sim: &] Susana Torres. Importa lembrar [porque estas coisas esquecem-se…] que Eder é o jogador de futebol que marcou o golo que deu a Portugal a vitória na final da competição UEFA EURO 2016 e Susana Torres é a “coach de alta performance” que — pelo que ali se lê — mudou a sua vida.
Apercebi-me que há muito não entrava numa livraria deste tipo. Foi então que esbarrei, na secção de religião, com o livro de André Prim: «Ele está sempre contigo». Na capa, ao lado de um indivíduo ruivo, com uma t-shirt branca vestida e os braços tatuados cruzados, uma espécie de legenda: “Uma viagem para trazeres Deus para a tua vida”.
Apesar da minha formação teológica, da minha experiência académica e eclesial nessa área e das centenas de livros que li nos últimos vinte anos, é curioso que tenha sempre reprimido a vontade de escrever um livro sobre Deus, na medida em que imagino-o um projeto de maturidade. Mas André Prim deu esse passo. Quem é André Prim? Lê-se na badana que “é professor de canto, conhecido na indústria da música por trabalhar com os maiores artistas em Portugal. Nasceu em 1988 em Portugal, onde viveu a maior parte da sua vida. Formado em Relações Públicas e Publicidade pelo Instituto das Novas Profissões (INP), em Lisboa, foi nos Estados Unidos que estudou canto e iniciou a sua carreira enquanto professor. Foi também lá que descobriu Deus e a sua paixão por comunicar a mensagem da Bíblia numa linguagem genuína e contemporânea, o que se tem tornado uma inspiração para muitas pessoas”.
Apenas uma coisa verdadeiramente me intriga e inquieta neste parágrafo: a existência do Instituto das Novas Profissões. Tudo o resto ou é circunstancial [nasceu em 1988 em Portugal, estudou canto, descobriu Deus, etc., etc.] ou ligeiramente empolado [trabalha com os maiores artistas, inspira muitas pessoas…]. Quando folheei o livro apercebi-me que “comunicar a mensagem da Bíblia numa linguagem genuína e contemporânea” é uma espécie de hipérbole ou eufemismo, para assentir com a ironia.
Isabel Silva nasceu em 1986, Eder em 1987 e André Prim em 1988. Estive quase para estabelecer um padrão de inteligibilidade histórico-cultural, mas pensei que era prudente dar o benefício da dúvida à década de 80 e resolvi visitar a secção de literatura.
O primeiro impacto confirmou os meus piores receios: alguns livros de Eça de Queirós coabitavam com os de José Rodrigues dos Santos na mesma estante e, ainda com mais destaque, com os de Pedro Chagas Freitas. Na badana de «Envelhenescer» – sugestivo neologismo que denuncia uma de duas coisas: inteligência rara ou lastimosa presunção – lê-se uma nota biográfica do autor: “Pedro Chagas Freitas é um gajo que escreve cenas. É um dos autores mais lidos em Portugal e é best-seller também em países como Itália e Brasil. Inventou jogos de escrita e (des)orienta, de todas as formas que consegue, workshops de escrita criativa. Adora amar e olhar para o que não existe. Acredita que não é parar que é morrer; é ir andando”. Valeu a pena dar o benefício à década de 80: Pedro Chagas Freitas nasceu em 1979.
E assim apercebi-me – desenganando-me – que já nem uma livraria amacia a minha irreprimível tendência para a misantropia.

Fotografia: Andrei Tarkovski | Nostalgia [1983]