Antero de Quental [1842-1891] e Teixeira de Pascoaes [1877-1952] são reconhecidamente dois dos mais importantes intelectuais da História da Cultura portuguesa.
Antero é um ilhéu, nasceu em Ponta Delgada [São Miguel, Açores]. “Mais bela ainda que os seus livros, a sua vida”, escreveu Guerra Junqueiro sobre esse poeta-filósofo que, tendo estudado em Coimbra e tendo vivido em Lisboa, Paris e, mais tarde, no Porto e em Vila do Conde, decide regressar à sua ilha atlântica, onde, com 49 anos, põe fim à sua vida com um “suicídio exemplar”, no Campo de São Francisco, num banco junto ao muro que fecha a cerca do Convento da Esperança, sob uma âncora e a palavra “esperança”, em relevo e pintadas a azul na parede. João de Deus, passados quatro anos, escreveu o epitáfio de Antero:

“Aqui jaz pó: eu não; eu sou quem fui,
— Raio animado dessa Luz celeste,
À qual a morte as almas restitui,
Restituindo à terra o pó que as veste.”

Pascoaes foi telúrico e granítico; nasceu em Amarante e, tal como Antero, estudou Direito em Coimbra; durante alguns anos viveu e trabalhou no Porto, antes de regressar à casa da sua infância, em São João de Gatão [nos arrabaldes rurais de Amarante], que é uma espécie de ilha de onde se vê o Marão. Autor de uma vasta obra, que Afonso Botelho define como “catedral de mistério”, Pascoaes morreu com 75 anos; teve, por isso, tempo para escrever o seu próprio epitáfio, que ainda se lê no granito da sua campa, no humilde cemitério de Gatão:

“Apagado de tanta luz que deu.
Frio de tanto calor que derramou.”

E o seu caixão foi feito da madeira de um pinheiro em forma de lira que ele próprio escolheu: “esquife de Orfeu e São Francisco”, como escreveu António Cândido Franco.
Ambos nasceram poetas: Antero imprime os seus «Sonetos» com 19 anos [1861]; Pascoaes publica «Embriões» com 18 anos [1895]. Ambos se implicaram nas questões e nas questiúnculas dos seus intrincados contextos: Antero de Quental entre a Questão Coimbrã e a Liga Patriótica do Norte; Teixeira de Pascoaes nos trabalhos da Renascença Portuguesa. Ambos, afirmados como poetas, implicaram-se ativamente na vida cívica, com entusiasmo político e sentimento patriótico; ambos se envolveram e gastaram em polémicas tão passionais como vãs; ambos revelaram mais fé do que esperança; ambos se exprimiram como oráculos, através de metáforas e aforismos. Foram profundamente carismáticos: sábios como antigos profetas e ingénuos como crianças. Tiveram pretensões e ilusões muitas, séquitos e discípulos.
As palavras de Eça de Queirós, em «Um génio que era um santo», permitem-nos perceber o mito do “Santo Antero”:

“Em Coimbra, uma noite, noite macia de abril ou maio, atravessando lentamente com as minhas Sebentas na algibeira o Largo da Feira, avistei sobre as escadarias da Sé Nova, romanticamente batidas pela lua, que nesses tempos ainda era romântica, um homem, de pé, que improvisava.
A sua face, a grenha densa e loura com lampejos fulvos, a barba de um ruivo mais escuro, frisada e aguda à maneira siríaca, reluziam, aureoladas. O braço inspirado mergulhava nas alturas como para as revolver. A capa, apenas presa por uma ponta, rojava por trás, largamente, negra nas lajes brancas, em pregas de imagem. E, sentados nos degraus da Igreja, outros homens, embuçados, sombras imóveis sobre as cantarias claras, escutavam, em silêncio e enlevo, como discípulos.
Parei, seduzido, com a impressão que não era aquele um repentista picaresco ou amavioso, como os vates do antiquíssimo século XVIII — mas um Bardo, um Bardo dos tempos novos, despertando almas, anunciando verdades. […]
Deslumbrado, toquei o cotovelo dum camarada, que murmurou, por entre os lábios abertos de gosto e pasmo:
— É o Antero!… […]
Então, perante este céu onde os escravos eram mais gloriosamente acolhidos que os doutores, destracei a capa, também me sentei num degrau, quase aos pés de Antero que improvisava, a escutar, num enlevo, como um discípulo. E para sempre assim me conservei na vida.
Intimidade, porém, com aquele que eu depois chamava ‘Santo Antero’, só verdadeiramente começou na manhã em que o visitei, com muita curiosidade e muita timidez, na sua casa do Largo de São João.”

Não era menor a admiração que a figura de Teixeira de Pascoaes, simultaneamente campestre e babilónica, despertava entre os amigos mais próximos ou entre aqueles que o procuravam na Casa de Pascoaes como se de um oráculo se tratasse. São de Jaime Cortesão estas palavras, em «Portugal, a Terra e o Homem»:

“Depois atinge-se Amarante debruçada sobre o rio, vila antiga e solarenga dum santo e dum poeta, de São Gonçalo e de Teixeira de Pascoaes. Poetas como este, por vezes mais que os santos, santificam a vida.”