Hoje passam 90 anos sobre a morte de Guilherme de Faria, poeta que — tendo sido posteriormente esquecido — desempenhou um interessante papel no contexto da vida cultural portuguesa, na década de 20 do século passado.
Guilherme de Faria nasceu em Guimarães, no dia 6 de outubro de 1907. No outono de 1919, com doze anos, mudou-se com a família para Lisboa. Entre 1922 e 1929, publicou sete livros de poesia: «Poemas» [1922], «Mais Poemas» [1922], «Sombra» [1924], «Saudade Minha» [1926], «Destino» [1927], «Manhã de Nevoeiro» [1927] e «Desencanto», que foi impresso no dia 4 de fevereiro de 1929, exatamente um mês após o suicídio do poeta. Em julho desse mesmo ano foi publicada a antologia «Saudade Minha (poesias escolhidas)», o “livro definitivo” de um poeta que se integrou na estética neorromântica lusitanista, assumida numa poesia que se encaminha da influência de poetas como Antero de Quental, António Nobre, Camilo Pessanha, Eugénio de Castro e José Duro, em contexto romântico-simbolista e decadentista, para uma poesia de inspiração quinhentista, sobretudo a partir de 1926, próxima dos universos poéticos neorromânticos lusitanistas de Afonso Lopes Vieira, António Correia d’Oliveira e José Bruges d’Oliveira.
Durante os quase dez anos que viveu no n.º 11 da Rua da Horta Seca [junto ao Largo de Camões, entre o Chiado e o Bairro Alto], Guilherme de Faria reuniu mais de novecentos livros na sua biblioteca pessoal e doutrinou-se no Integralismo Lusitano, próximo de Alfredo Pimenta e Luís de Almeida Braga. Com apenas 17 anos, em 1924 e 1925, editou quatro livros de Teixeira de Pascoaes – «Elegia do Amor», «Sonetos», «Londres» e «D. Carlos» –, tendo frequentado o séquito do poeta de Amarante n’A Brasileira do Chiado, no qual contactou com Raul Brandão e Mário Beirão, entre outros, e no qual introduziu Anrique Paço d’Arcos; ofereceu os seus livros a poetas como Guerra Junqueiro e Fernando Pessoa; conheceu Jaime Cortesão e Raul Proença; relacionou-se com Carlos de Lemos, Fausto Guedes Teixeira, Afonso Lopes Vieira, António Correia d’Oliveira, Raul Leal, Almada Negreiros, Mário Saa, António Botto, António Pedro, entre tantos outros. É verdadeiramente impressionante que alguém que se tenha suicidado com apenas 21 anos, tenha conseguido estabelecer uma teia de contactos com uma parte significativa da “intelligentsia” portuguesa do seu tempo.
No dia 4 de janeiro de 1929, em Lisboa, Guilherme de Faria saiu de sua casa, junto ao largo de Camões, desceu até à Estação Ferroviária do Cais do Sodré e apanhou o comboio para Cascais; seguiu, junto ao mar, até à Cidadela e, depois, pela Estrada da Boca do Inferno. Foi um caminho sem retorno. Com apenas 21 anos, Guilherme de Faria precipitou-se no mar: as fragas, a água fria e a violência das vagas reclamaram o seu corpo.
Recordo aqui o seu “Fim”, poema escrito em 1927. Como um pressentimento ensimesmado, o rumor poético de uma vida que se situou conscientemente diante da morte:

“Alma, enfim descansa
Na desesperança.

Alma, esquece e passa:
Dorme, enfim segura
Dessa última graça
Que é toda a ventura.

E à Saudade em flor
Que o teu sonho lindo
Perfumou de amor,
Diz-lhe adeus, sorrindo…

Que Ela há de escutar-te,
Pálida, a entender-te!
E, no espanto enorme,
Sonhando envolver-te,
Triste, há de embalar-te
– ‘Dorme… dorme… dorme…’ –
Como a adormecer-te.”