No dia 22 de dezembro de 2014, na Sala Clementina, o Papa Francisco recebeu em audiência os membros da Cúria Romana para os tradicionais votos de boas festas e partilhou uma reflexão admirável, sobre “quinze doenças” que, no seu entendimento, enfermam a Cúria Romana.
Na verdade, estas doenças não afetam apenas os cardeais da Cúria: afetam todas as pessoas e os grupos humanos, das estruturas sociais mais simples às mais complexas
Tendo em consideração diferentes contextos escolares, creio que uma adaptação desta reflexão do Papa Francisco pode ser uma ferramenta para um “exame de consciência”, no âmbito de um processo informal de autoavaliação.
O ponto de partida é sempre o texto do Papa Francisco, com a consciência de que algumas destas doenças têm uma intrínseca interdependência e concorrem, conjuntamente, para um diagnóstico geral e sistémico. Mais: algumas destas doenças são endémicas nas escolas e, independentemente dos sistemas imunológicos e das terapêuticas, para muitos professores algumas delas podem já ser crónicas, incuráveis e mesmo terminais.

1. A doença de sentir-se «imortal», «imune» ou mesmo «indispensável», descuidando a vigilância habitualmente necessária. Um corpo que não se autocrítica, não se atualiza, nem procura melhorar é um corpo enfermo. O Papa Francisco desafia os membros da Cúria a visitar um cemitério, no sentido de olhar desapaixonadamente as sepulturas de tantas pessoas que eventualmente foram tentadas a sentir-se imortais, imunes e indispensáveis. Um professor que se leva excessivamente a sério está cheio de si; vive mais preocupado com o que ensina do que com o que os alunos aprendem; defende obstinadamente a sua disciplina, o seu programa, a sua metodologia de avaliação e a sua sala de aula [como um espaço fechado onde exerce um poder aparentemente autocrático]. Este professor tem uma linguagem envenenada por pronomes possessivos, é incapaz de relativizar a sua condição e a sua missão, perpetua os comportamentos de que foi vítima na condição de aluno e não tem consciência de que muitos dos seus professores e muitos dos conteúdos que lhe ensinaram foram irrelevantes e rapidamente esquecidos. Como escreveu o Papa Francisco, o antídoto para esta epidemia é a humildade e a graça de nos sentirmos pecadores e dizer com todo o coração: «Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer» [Lc 17, 10].

2. A doença do «martismo» [que vem de Marta], da atividade excessiva, ou seja, daqueles que mergulham no trabalho, negligenciando inevitavelmente «a melhor parte»: sentar-se aos pés de Jesus [cf. Lc 10, 38-42]. Por isso, Jesus convidou os seus discípulos a «descansar um pouco» [cf. Mc 6, 31], porque descuidar o descanso necessário leva ao stress e à [hoje tão falada] síndrome de burnout. O tempo do repouso, para quem levou a cabo a sua missão, é necessário, obrigatório e deve ser vivido seriamente: daí a importância do contexto familiar e de outros contextos sociais e culturais complementares na vida de um professor. Esse «martismo», com o tempo, torna-se enfático e endémico, até à catatonia. Esta atitude vicia o professor na autovitimização, no sentimento de que é indispensável, trabalha muito e está sempre cansado. Na verdade, há professores que têm um ar abatido, puído… e esse aspeto não resulta necessariamente de trabalharem muito, mas de trabalharem mal, num esforço que normalmente não dá bons frutos e que envenena as suas relações pessoais, dentro e fora da escola, com os colegas e com os alunos, mas também com a família e com os amigos. Fazer muito nunca foi sinónimo de fazer bem. O «martismo» é causa e efeito de considerar essencial o acessório e considerar acessório o essencial. Um professor precisa de uma inteligência emocional que o ajude a escolher «a melhor parte».

3. Há também a doença do «empedernimento» mental e espiritual, ou seja, daqueles que possuem um coração de pedra e uma «cerviz dura» [Act 7, 51]; daqueles que, à medida que vão caminhando, perdem a serenidade interior, a vivacidade e a ousadia e escondem-se sob os papéis, tornando-se «máquinas de práticas» e não «homens de Deus» [cf. Heb 3, 12]. A um professor desculpam-se algumas fragilidades científicas e mesmo pedagógicas, mas a insensibilidade humana é indesculpável. Como escreveu o Papa Francisco, esta é a doença daqueles que perderam «os sentimentos de Jesus» [cf. Flp 2, 5-11], porque o seu coração, com o passar do tempo, endureceu, tornando-se incapaz de amar incondicionalmente [cf. Mt 22, 34-40]. De facto, não apenas numa «escola católica», é difícil conceber um professor sem sentimentos de humildade e doação, desprendimento e generosidade. Lamentavelmente, as escolas encheram-se de professores insensíveis e indiferentes, que não estimam os alunos e para quem ser professor é meramente uma profissão que resultou de uma circunstância, mas não de uma genuína vocação. Para os professores que sofrem de «empedernimento», o aluno não é a prioridade, nem o seu bem-estar, nem a sua educação integral e diferenciada. Bastaria estarmos atentos ao modo como muitos professores se referem aos alunos para perceber a abrangência e a gravidade desta doença. Eventualmente legitimados na premissa: Dura lex, sed lex, já não educam… avaliam como se a avaliação fosse um fim em si mesma; mas não suportam ser avaliados.

4. A doença da planificação excessiva e do funcionalismo. Quando o apóstolo planifica tudo minuciosamente e julga que, se fizer uma planificação perfeita, as coisas avançam efetivamente, torna-se um contabilista ou comercialista. É necessário organizar, planificar, preparar… mas sem cair na tentação de querer exercer um domínio sobre a liberdade do Espírito Santo, que sempre permanece maior e mais generosa do que toda a planificação humana [cf. Jo 3, 8]. Como escreveu o Papa Francisco, deixamo-nos assim adoecer porque é sempre mais fácil e confortável a acomodação nas próprias posições estáticas e inalteradas. Nas escolas, a planificação excessiva e o funcionalismo tendem a perder o seu carácter meramente instrumental, ao serviço da educação, e a tornar-se um fim em si mesmos; conduzem a atavismos e restringem a criatividade. Existe nas escolas uma espécie de «ditadura da burocracia», em chave positivista, com a presunção sistémica de que não é a escola – enquanto entidade abstrata e neutra – que está ao serviço das pessoas, mas as pessoas, por existirem e serem teoricamente educáveis, que estão ao serviço da escola.

5. A doença da má coordenação. Quando os membros perdem a sincronização entre eles e o corpo perde o seu harmonioso funcionamento e a sua temperança, tornando-se uma orquestra que produz ruído, porque os seus membros não colaboram e não vivem o espírito de comunhão e de equipa. Esta doença da má coordenação nas escolas nasce da consciência de que a sala de aula é uma espécie de «feudo» do professor, de que cada disciplina é autossuficiente, de que cada programa vale por si mesmo e que o seu cumprimento legitima professor e disciplina no seu ensimesmamento. Esta doença da má coordenação é a causa e o efeito de os professores trabalharem sozinhos, estarem fechados na sua sala de aula e subestimarem o trabalho de equipa, a partilha comutativa e a interdisciplinaridade. Tudo isto resulta não numa educação integrada e integral, mas numa espécie de mixórdia de conhecimentos inconsequentes entre si, e que não concorrem para o mesmo. E, assim, até podemos “preparar” os alunos para os exames; mas não os preparamos para a vida. A má coordenação é a doença que denuncia que o corpo docente é raramente um corpo.

6. Há também a doença do «alzheimer espiritual», ou seja, o esquecimento da «história da salvação», da história pessoal com o Senhor, do «primitivo amor» [Ap 2, 4]. Para o Papa Francisco, trata-se de um progressivo declínio das faculdades espirituais, que, num período mais ou menos longo de tempo, causa grave deficiência à pessoa, tornando-a incapaz de exercer qualquer atividade autónoma, vivendo num estado de absoluta dependência dos seus pontos de vista frequentemente imaginários. Encontramos esta doença naqueles que dependem completamente do seu presente, das suas paixões, caprichos e manias; naqueles que constroem em torno de si muros e costumes, tornando-se cada vez mais escravos dos ídolos que esculpiram com as suas próprias mãos. Os professores enfermos desta doença, já se esqueceram daquilo que os chamou, um dia, para a educação, esse «primitivo amor» [se ser professor não foi uma contingência]; já se esqueceram do tempo em que foram crianças, já se esqueceram das pequenas perversões a que foram sujeitos e que, por tê-las esquecido, as sujeitam aos outros. Um professor enfermo desta doença torna-se abúlico e deixa a mediocridade instalar-se; não tem passado, nem guarda o futuro.

7. A doença da rivalidade e da vanglória. Quando a aparência, as cores das vestes e as insígnias de honra se tornam o objetivo primário da vida, esquecendo as palavras de São Paulo: «Nada façais por ambição, nem por vaidade; mas, com humildade, considerai os outros superiores a vós próprios, não tendo cada um em vista os próprios interesses, mas todos e cada um exatamente os interesses dos outros» [Flp 2, 3-4]. Para o Papa Francisco esta é a doença que nos leva a ser homens e mulheres falsos e a viver um falso «misticismo» e um falso «quietismo». O próprio São Paulo define-os como «inimigos da cruz de Cristo», porque «gloriam-se da sua vergonha, esses que estão presos às coisas da terra» [Flp 3, 18.19]. No fundo, no contexto da escola, esta é a doença de quem não tem humildade, de quem não se relativiza, de quem trabalha para uma pose, de quem luta por um establishment, de quem vive em função do cargo que tem ou ambiciona ter, de quem – por tudo isto – tenta legitimar a sua ação a partir de uma relação de poder, seja com os alunos ou com os colegas.

8. A doença da esquizofrenia existencial. É a doença daqueles que vivem uma vida dupla, fruto da hipocrisia típica do medíocre e do progressivo vazio espiritual que nem protagonismo social, nem títulos académicos podem preencher. Trata-se de uma doença que acomete frequentemente aqueles que, perdendo o sentido de serviço, se limitam às questões burocráticas, perdendo assim o contacto com a realidade, com as pessoas concretas. Os professores com esta enfermidade tendem a criar um mundo paralelo e ensimesmado em que a realidade passa a ser apenas a sua realidade: o seu contrato, a sua carreira, a sua disciplina, o seu programa, o seu status quo, o seu intocável pequeno mundo. A conversão é muito urgente e indispensável para esta gravíssima doença [cf. Lc 15, 11-32]. Com a consciência de que as escolas estão mais burocratizadas e de que se impuseram paradigmas como a «ditadura dos programas» e a «preparação para os exames», esta doença torna-se endémica no contexto escolar.

9. A doença das bisbilhotices, das murmurações e das críticas. Desta doença, já falei muitas vezes, mas nunca é demais. Trata-se de uma doença grave, que começa de forma simples, talvez por duas bisbilhotices apenas, e acaba por se apoderar da pessoa fazendo dela uma «semeadora de cizânia» [como satanás] e, em muitos casos, «homicida a sangue frio» da fama dos próprios colegas e confrades. É a doença das pessoas velhacas que, não tendo a coragem de fazê-lo diretamente, falam pelas costas. São Paulo adverte-nos: «Fazei tudo sem murmurações nem discussões, para serdes irrepreensíveis e íntegros» [Flp 2, 14-15]. O Papa Francisco adverte-nos para que nos livremos do «terrorismo das bisbilhotices». Esta é uma das doenças mais sistémicas numa escola, particularmente num contexto pequeno e com um corpo docente estável. A bisbilhotice nasce muitas vezes de uma espécie de autodefesa: difamamos os outros para encobrir as nossas incompetências e fragilidades. E isso também acontece em relação aos alunos, quando questionamos a sua idoneidade para legitimar atitudes pedagogicamente reprováveis da nossa parte ou quando os avaliamos em função de juízos de valor puramente subjetivos.

10. A doença de divinizar os líderes: é a doença daqueles que fazem a corte aos seus «superiores», na esperança de obter a sua benevolência. São vítimas do carreirismo e do oportunismo, honram as pessoas e não Deus [cf. Mt 23, 8-12]. Estes são aqueles professores que vivem o serviço, pensando unicamente no que podem obter e não no que devem dar. Como escreveu o Papa Francisco, são pessoas mesquinhas, infelizes e movidas apenas pelo seu egoísmo fatal [cf. Gal 5, 16-25]. Esta doença atinge também os «superiores», quando fazem a corte a algum dos seus colaboradores para obter a sua submissão e dependência psicológica. O resultado desta doença nas escolas é uma cumplicidade promíscua, uma rede perniciosa de relações de poder, um corpo docente envenenado e pervertido, chefias sem mérito.

11. A doença da indiferença para com os outros. Quando cada um só pensa em si mesmo e perde a sinceridade e o calor das relações humanas. Quando o mais experiente não coloca o seu conhecimento ao serviço dos colegas menos experientes. Esta é também uma doença sistémica no contexto escolar. Quantas vezes um professor tem conhecimentos que não partilha? Quantas vezes, por ciúmes ou por astúcia, sente alegria ao ver o outro cair, em vez de o levantar e encorajar? Esta doença é um flagelo e é causa e efeito de outras enfermidades. O professor, assim doente, não trabalha em equipa, não promove a interdisciplinaridade nem a convergência transversal dos conhecimentos. A sua competência e o seu empenho não buscam – como seria de esperar – o bem comum, mas procuram denunciar com astuta hipocrisia as fragilidades dos colegas. O professor, assim doente, é indiferente à interajuda, à correção fraterna e tende a acreditar que o seu êxito [mais do que o seu fracasso] é apenas o resultado expectável do seu desempenho individual.

12. A doença da «cara fúnebre», ou seja, das pessoas rudes e amargas que consideram que, para se ser sério, é preciso pintar o rosto de melancolia, de severidade e tratar os outros – sobretudo aqueles considerados «inferiores» – com rigidez, dureza e arrogância. Para o Papa Francisco, a severidade teatral e o pessimismo estéril são sintomas de medo e insegurança de si mesmo. Nesse sentido, o professor deve esforçar-se por ser uma pessoa gentil, serena, entusiasta e alegre, que transmite alegria onde quer que esteja. Um coração cheio de Deus é um coração feliz que contagia aqueles que estão ao seu redor. Para o Papa Francisco, não devemos perder aquele espírito jubiloso, bem-humorado e até auto-irónico, que faz de nós pessoas amáveis, mesmo nas adversidades. Há professores que trazem um semblante carregado de acédia e aziúme: são tristes e azedos. Há professores que acreditam que a sua autoridade decorre de uma postura austera e de atitudes rudes e severas; outros acreditam que a «cara fúnebre» suscita a benevolência compassiva dos outros. Para os que sofrem de acédia e aziúme, o Papa Francisco aconselha a oração de São Tomás More: «Senhor, dá-me uma boa digestão e também qualquer coisa para digerir. Dá-me a saúde do corpo e o bom humor necessário para a manter. Dá-me, Senhor, uma alma simples que saiba aprender com tudo o que é bom e não se assuste à vista do mal, antes encontre sempre o modo de colocar cada coisa no seu lugar. Dá-me uma alma que não conheça o tédio, os resmungos, os suspiros, os lamentos, e não permitas que me preocupe excessivamente com esta coisa demasiado embaraçante que se chama «eu». Dá-me, Senhor, o sentido do bom humor. Concede-me a graça de compreender uma brincadeira para descobrir na vida um pouco de alegria e partilhá-la também com os outros. Ámen.»

13. A doença do acumular, ou seja, quando o apóstolo procura preencher um vazio existencial no seu coração acumulando bens materiais, não por necessidade, mas apenas para se sentir seguro. O Papa Francisco parte da consciência evangélica de que nada de material poderemos levar connosco, porque «a mortalha não tem bolsos» e todos os nossos tesouros terrenos – mesmo que sejam presentes – não poderão jamais preencher aquele vazio, antes torná-lo-ão cada vez mais exigente e profundo. Esta doença afeta os professores de um modo muito concreto: quando assumem a sua profissão não como uma missão, que implica necessariamente gratuidade e generosidade, mas como um expediente que – podendo ser outro sem prejuízo da sua realização humana e profissional – assegura o sustento e o status quo. Mais do que a acumulação de bens materiais, a face visível desta doença no contexto escolar é aquela consciência de que cumpro em função do que me remuneram, de que apenas me excedo na proporção da recompensa. Quantas vezes não ouvimos um professor desabafar com um certo pragmatismo cínico: «Não me pagam para isso…»

14. A doença dos círculos fechados, onde a pertença ao grupo se torna mais forte que a pertença ao Corpo e, nalgumas situações, ao próprio Cristo. Para o papa Francisco, também esta doença começa com boas intenções, mas, com o passar do tempo, escraviza os membros tornando-se um cancro que ameaça a harmonia do corpo e causa um mal imenso. Lembra que a autodestruição ou o «fogo amigo» dos companheiros de armas é o perigo mais insidioso. Os ciclos e os departamentos tornam esta doença uma «doença de risco» nas escolas: a propensão gregária. Basta observar uma reunião geral de professores ou um contexto mais informal, como um almoço ou um jantar: as mesmas pessoas integradas nos mesmos grupos. São poucos os que circulam. O grupo pode ser claustrofóbico, mas oferece segurança: suportá-lo é difícil, mas abandoná-lo parece impossível. A doença dos círculos fechados retira-nos a capacidade de desejar e lutar pelo bem comum.

15. E a última: a doença do lucro mundano, dos exibicionismos, quando o apóstolo transforma o seu serviço em poder, e o seu poder em mercadoria para obter lucros mundanos ou mais poder. Para o Papa Francisco, esta é a doença das pessoas que procuram insaciavelmente multiplicar o seu poder e, para isso, são capazes de caluniar, difamar e desacreditar os outros, mesmo publicamente. Lembra a expressão: «Dividir para reinar». Um professor, assim doente, busca o protagonismo; não se inibe de amesquinhar os colegas e os alunos; tem prazer na sensação de «ter a faca e o queijo na mão». Para este professor há dois tipos de alunos com dificuldades: aquele que está inscrito na sua escola, para o qual muitas vezes não tem paciência e com o qual não está disposto a perder tempo; e aquele que lhe paga aulas particulares, para com o qual bem é paciente e simpático. A doença do lucro mundano faz com que o insucesso escolar e as expectativas no acesso ao ensino superior sejam um “negócio” para muitos professores. E, por isso, há que fazer perdurar este sistema promíscuo e imoral. Há professores cujas qualidades são apenas observáveis em aulas particulares: a sua conduta deontológica é proporcional à sua remuneração.