Por estes dias será publicado o n.º 7 da Revista Cultural do Santuário de Fátima: «Fátima XXI». Coordenei o caderno temático deste número, dedicado ao Imaculado Coração de Maria, no qual se reúnem vários contributos: textos de Adelino Ascenso, Ângela de Fátima Coelho, João Manuel Duque, José Pedro Angélico, Luís Soares Barbosa, Nuno Higino, Pedro Valinho, Ruy Ventura e Vítor Teixeira, que possibilitam diferentes perspetivas, abordagens no âmbito da cultura bíblica, da atividade teologal e da consciência histórica, sem prescindir de uma literacia poética que converte ao coração o aparelho cardíaco.
A partir de um poema de José Tolentino Mendonça – «A presença mais pura» –, Luís Costa e Francisco Gomes fotografaram Romana Carmo, não como modelo que posa, mas como metáfora de Maria, com um coração-madeiro [peça da autoria de Sofia Brandão], chaves, o fruto e a flor, a luz, a palavra e o pão, e as mãos – as mãos sobre o coração, o coração agora implícito, o coração nas mãos.
De Trelew, na Patagonia argentina, chegou uma representação do Imaculado Coração de Maria de Gustavo Aimar, portenho que se define a si próprio como “diseñador gráfico, con disfraz de ilustrador y caprichos de artista plástico”.
Partilho aqui a minha introdução:

O Evangelho chega na infância, antes da intencionalidade de qualquer discurso, pelo comportamento daqueles que habitam os nossos espaços afetivos e se tornam íntimos da nossa temporalidade. O amor da minha mãe foi, no contexto familiar de “domus ecclesia”, essa espécie de incubadora onde o Evangelho – em gestos e testemunhos simples – se desdobrou em literacia e mundividência.
No princípio da década de 80, tendo aprendido a ler, foram-me oferecidos dezenas de pequenos livros da Coleção Formiguinha – da Editorial Infantil Majora – e, entre eles, uma adaptação d’«O Príncipe Feliz», de Oscar Wilde. Admito que, por meio desta história, Oscar Wilde possa ter sido, em sentido profundo, o meu primeiro catequista.
Nela se lia que um Príncipe governara a sua cidade sem sair do palácio; vivia imerso no letárgico conforto que o seu estatuto e a sua fortuna permitiam, entre as mesuras dos cortesãos e o esplendor dos jardins. Não se sabia triste, na medida em que não conhecia a tristeza dos outros, desses outros que viviam expostos aos desgastes e desgostos da “vida real”, com as suas prosaicas misérias e sofrimentos. Tendo morrido, ergueram-lhe uma esplêndida estátua no ponto mais elevado da cidade. Do alto do pedestal, a estátua do Príncipe Feliz – animada pela sua consciência – pôde ver pela primeira vez a miséria dos seus súbditos e, como se lhe doesse o coração de chumbo, todas as noites chorava, compadecido com o sofrimento até então desconhecido. Uma Andorinha – dessas que, chegado o outono, em vez de voarem apressadamente para sul, demoram-se enamoradas de um tufo de junco – decidiu pernoitar no pedestal da estátua e, tendo acordado com as lágrimas do Príncipe, condói-se da sua tristeza e, a seu pedido, dispõe-se a levar os preciosos ornamentos da estátua àqueles que mais sofriam na cidade. Passado algum tempo, a estátua estava despida de todos os seus adornos e a Andorinha, vítima do cansaço e do frio, cai morta aos seus pés. A desadornada e degradada estátua foi, então, enviada para uma fundição. E o seu coração de chumbo, não tendo derretido no forno, foi atirado para o monte de lixo para onde tinha também sido arremessada a andorinha morta.
Recordo a angústia que se apossou de mim quando este me pareceu ser o fim desta história. Mas, na última página [uma página escatológica… sem que eu conhecesse o significado de “escatologia”], Deus envia um anjo à cidade com a missão de lhe trazer os bens mais preciosos que aí encontrasse… e o anjo leva-lhe o coração de chumbo do Príncipe e a Andorinha morta. E, na presença de Deus, a avezinha cantou eternamente, junto do misericordioso Príncipe Feliz.
Oscar Wilde possibilitou-me, assim, os rudimentos da misericórdia; uma visão poética de um coração compadecido, condoído; e as primícias do desejo de santidade, ou seja: acalentou em mim o desejo de ter um coração que merecesse, um dia, ser resgatado por um anjo para junto de Deus. O exausto coração de carne da Andorinha, puído por um amor que não se defende de amar, e o indestrutível coração de chumbo do Príncipe: dois corações consagrados, unidos nos sentimentos de misericórdia, despojados de adornos, arremessados para o entulho do mundo e, finalmente, remidos por Deus.
Esses dois corações ensinaram-me a não estranhar duas imagens muito intensas da minha infância: um “sagrado” Coração de Jesus – talvez em marfinite – sobre a cabeceira da minha cama e um “sagrado” Coração de Maria, estampa kitsch que coloria a sala de estar da casa dos meus avós paternos. Nas duas representações, um coração destacado do peito, um coração encimado por um fogo, o seu amor como um fogo, um amor incendido. Talvez o coração do Príncipe Feliz não fosse de chumbo… ter-se-ia fundido no forno; talvez fosse um coração assim explícito, um coração que não coubesse no tórax, um coração que ardesse sem se consumir.
Ali estava, na sala de estar da casa dos meus avós paternos, uma devoção poeticamente compreensível à luz d’«O Príncipe Feliz», de Oscar Wilde. Só muito mais tarde consegui dissociar o conceito de “imaculado” do conceito de “sagrado”, até então pouco mais do que sinónimos. Só depois percebi que «imaculado» é um atributo ontológico. E só há pouco me apercebi que não se trata necessariamente de um adjetivo de «coração»: “imaculado coração” é um substantivo.
Joseph Ratzinger, então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, na sua tentativa de interpretação do “segredo” de Fátima, lembra que “coração”, na linguagem da Bíblia, “significa o centro da existência humana, uma confluência da razão, vontade, temperamento e sensibilidade, onde a pessoa encontra a sua unidade e orientação interior. O ‘coração imaculado’ é, segundo o evangelho de Mateus [5, 8], um coração que a partir de Deus chegou a uma perfeita unidade interior e, consequentemente, ‘vê a Deus’. Portanto, ‘devoção’ ao Imaculado coração de Maria é aproximar-se desta atitude do coração, na qual o fiat – ‘seja feita a vossa vontade’ – se torna o centro conformador de toda a existência”.
Talvez seja um coração assim explícito, um coração que não caiba no tórax, um coração que arda sem se consumir. Há cem anos, consciente da perda de Jacinta e de Francisco, Lúcia foi confortada por estas palavras: “Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus.”

Fotografia: Romana Carmo [pormenor] | Luís Costa e Francisco Gomes