Independentemente da possibilidade da falácia do terceiro excluído, parece-me que a vida é uma de duas coisas: algo verdadeiramente com sentido ou algo completamente absurdo. Não há meio-termo. E praticamente todas as pessoas que eu conheço estão no meio-termo. Se admitissem que não faz sentido, tornar-se-iam estoicas, comovedoramente tristes, sem esperança e sem medo, até eventualmente enfrentarem um inexorável suicídio; se porventura descobrissem que a vida tem sentido, tornar-se-iam ascéticas, apartar-se-iam da sociedade e das suas feiras de vaidades e horrores, passariam a contemplar poeticamente a verdade, a bondade e a beleza. E, apesar de tudo, só uma coisa me magoa e entristece: a consciência de que não sou um asceta.

Pintura: ‘S. Jerónimo’ [1605-1606] | Caravaggio [1571-1610]