No dia em que inicia o 2.º Curso AEEP | Formação de Diretores, recordo a conferência que pronunciei no dia 20 de outubro de 2016, nas VII Jornadas Empresariais das Fundações AEP [Associação Empresarial de Portugal] e Serralves, subordinadas ao tema INICIATIVA E REALIZAÇÃO, sobre a experiência do Colégio Luso-Francês:

Começo por agradecer às Fundações AEP e Serralves, na pessoa do Prof. Valente de Oliveira, que me endereçou o convite para que aqui partilhasse, nestas VII Jornadas Empresarias, um pouco da experiência do Colégio Luso-Francês neste amplexo entre iniciativa e realização, na minha perspetiva pessoal, enquanto diretor pedagógico deste Colégio.
Importa dizer que foi em setembro de 2014 que assumi – juntamente com a Prof.ª Isabel Moreno – a direção pedagógica desta instituição, onde leciono desde 2000 e onde coordenei inúmeros projetos que podem ser considerados no âmbito do tema que aqui nos reúne.
Sobre o nosso trabalho, tendo já em consideração a temática da “iniciativa e realização”, importa dizer que é duplamente dificultado: primeiro por se tratar de uma escola octogenária, uma escola que começou por ser um internato de meninas na década de trinta, a funcionar num palacete nos limites ainda rurais da cidade, e que foi sacrificando a sua primeira matriz identitária às expectativas e exigências impostas pelos sinais dos tempos, adaptando o seu projeto educativo – e mesmo as suas instalações – e respondendo a todo o tipo de desafios mais ou menos circunstanciais; segundo por existirmos integrados num sistema educativo que, na sua complexidade sistémica, é conservador e atávico: com ou sem matriz ideológica, explícita ou implicitamente considerada, de reforma em reforma a educação tornou-se, por força da regulação sociopolítica, um monólito positivista, condenado a gerar, salvo algumas honrosas exceções, pouco mais do que mais do mesmo.
Isto leva-nos a uma primeira constatação: a Escola não está pensada para funcionar como um espaço-tempo [diria: uma caixa-de-ressonância ou um paradigma] propício à “iniciativa e realização”. E o problema já não é tanto a sua natureza programática, mas, mais profundamente, o modo como o atavismo sistémico, a repetição sonâmbula dos processos e os pretextos de um funcionalismo pragmático se impuseram e assoberbaram a consciência e o quotidiano daqueles que seriam os agentes, os promotores da Escola enquanto lugar privilegiado de “iniciativa e realização” e de uma educação para a “iniciativa” e para a “realização”.
Uma segunda constatação: “iniciativa e realização” não são valores em si mesmos, mas um resultado expectável da operatividade das inteligências, do conhecimento e da autonomia, um resultado expectável da consciência e do compromisso com o bem-comum. Mais: “iniciativa e realização” não são fins em si mesmos, mas meios para realidades que lhes são ulteriores… ou seja: têm um caráter instrumental, são ferramentas primeiramente atitudinais que – no caso concreto da educação e precisamente por serem educáveis – permitem à criança, desde a educação pré-escolar, assumir a sua vida como uma empresa, não no sentido restrito de uma sociedade ou companhia que explora qualquer ramo da indústria ou do comércio, mas enquanto empreendimento existencial, numa ótica humanista.
Decidi dividir esta comunicação em duas partes. Na primeira, apresento aquilo que considero o fundamento personalista de uma escola empenhada na promoção de “iniciativa e realização”. Na segunda parte, partilharei alguns projetos que ilustram o investimento concreto do Colégio Luso-Francês em diferentes dimensões de empreendedorismo.

1. Em 1936, no mesmo ano em que nasceu o Colégio Luso-Francês, Emmanuel Mounier assinou o seu «Manifesto ao Serviço do Personalismo», no qual dedica um capítulo à questão da educação: “A educação da pessoa”, onde reflete sobre um estatuto pluralista de escola, depois de definir os princípios de uma educação personalista.
Sigo de perto a sua reflexão, com a convicção de que constitui o fundamento do projeto educativo em que acreditamos e que queremos promover no Colégio Luso-Francês, enquanto escola católica de matriz franciscana, ou seja: inspirada pela impressiva experiência de santidade de Francisco de Assis.
Tal como o Mounier, não aceitamos uma neutralidade impessoal nem consentimos com o domínio da colectividade sobre a pessoa da criança.
Defendemos que a educação não tem por finalidade condicionar a criança ao conformismo de um meio social ou de uma doutrina de Estado, ou de um sistema socioeconómico mais ou menos indiferenciado. Por outro lado, não aceitamos que o fim último da educação se reduza ao papel que a pessoa representa no sistema das funções sociais ou num qualquer sistema de relações privadas.
A educação não é redutível nem ao cidadão, nem ao profissional, nem ao personagem social. Ao contrário do que diz a edificante premissa [meia-mentira que parece meia-verdade à força de ser repetida], a educação não tem como função tutelar converter a criança num cidadão consciente, num pequeno patriota, nem num correligionário positivista de qualquer modelo de proficiência socioeconómica, política e cultural. Sem retóricas: a educação tem como missão essencial despertar pessoas capazes de viver e de se comprometer como pessoas.
Nesse sentido, opomo-nos a qualquer regime totalitário de escola e à excessiva normatividade sistémica do paradigma convencional que, em vez de preparar progressivamente a pessoa para usar da sua liberdade e das suas responsabilidades, começa por esterilizá-la, vergando a criança ao triste hábito de pensar por delegação, de agir por ordem e de resignar-se a estar situada, acomodada.
Todos aceitamos a premissa que afirma que ter uma profissão é condição necessária para garantir a mínima liberdade material sem a qual a vida pessoal fica comprometedoramente obstaculizada, no entanto, acreditamos que a preparação para a profissão e a formação técnica e instrumental não devem constituir o centro nem o fim último da ação educativa.
Como escreveu Mounier, a atividade da pessoa é liberdade e conversão à unidade de um fim e de uma fé. Não aceitando que a educação seja totalitária [ou seja: materialmente extrínseca e coerciva], defendemos que deve ser integral, na medida em que afeta e implica o homem na completude da sua essência e em todas as dimensões da sua existência.
A escola [e mesmo o ensino pré-escolar] tem como função ensinar a viver e não apenas prover à transmissão de conhecimentos ou à aquisição de certas competências. E é o próprio de um mundo de pessoas que a vida não se ensine mediante uma instrução impessoal, subministrada em forma de verdades codificáveis.
Tal concepção de ensino assenta sobre o pressuposto racionalista de uma verdade totalmente justificável por evidência positiva e comunicável ao modo académico, sem a sanção da experiência pessoal que, no sujeito que a recebe, é integrada numa vida culminada por valores. Ignorando por decisão o fim último da educação – a singradura existencial da pessoa – e os meios que lhe são apropriados, uma escola assim pensada corre o risco de limitar-se aos fins práticos do organismo social: a preparação técnica do produtor e a formação generalista do cidadão. Tal escola limita-se a salvar uma aparência de cultura e a acumulação sem sentido de disciplinas.
Ao não dar à pessoa mais do que o sentido de uma liberdade vazia, a escola prepara-a apenas para a indiferença ou para uma espécie de jogo, não para uma existência comprometida e responsável.
No Colégio Luso-Francês acreditamos e defendemos que a liberdade não é indiferente, mas que é chamada a um certo destino que se diversifica em cada vocação pessoal. E creio que é esse o contributo da escola para aquilo que designamos por empreendedorismo: a atitude de quem tem iniciativa e se realiza, realizando – tornando parte da realidade – aquilo que idealiza.

2. Nesta segunda parte, começo por dizer que o nosso alvará de funcionamento data do 7 de novembro de 1936: estamos quase a completar 80 anos e queremos assinalar esta efeméride com os olhos postos no centenário, numa visão estratégica que nos permita continuar o futuro que começámos em 1936.
O nosso compromisso é, primeiramente, com cada uma das mais de 1200 crianças que atualmente nos são confiadas, conscientes de que no seu trajeto escolar, em condições normais, cada aluno habita o Colégio durante mais de três mil dias. É neste quotidiano que o nosso trabalho é legitimado, assim como na singradura existencial dos nossos ex-alunos, que constituem os nossos mais importantes “ativos”, na lógica de uma economia humanista.
Não apresento aqui nenhum projeto em particular, na medida em que me parece mais interessante ter fundamentado a atitude institucional que nos conduz a um conjunto muito diversificado de projetos e atividades que, no meu entendimento, se ajustam a esta reflexão no âmbito daquilo que poderia ser denominado por “educação para o empreendedorismo”.
Pedi aos coordenadores dos diferentes projetos que desenvolvemos no Colégio Luso-Francês que me enviassem informação organizada para esta comunicação.
Num dos documentos, listavam-se as nossas participações nas Olimpíadas de Física desde 2006. Apercebi-me que nas fases regionais e nacionais, nos últimos dez anos, obtivemos sete menções honrosas, quatro medalhas de bronze, quatro de prata e onze de ouro; e nas internacionais – entre centenas de concorrentes de todo o mundo – obtivemos três menções de mérito e quatro medalhas de bronze. Mas este tipo de informação, por muito que resulte em algo edificante, não serve o propósito desta comunicação.
A pergunta que se impôs: para além do quotidiano escolar, das aulas, dos processos de avaliação, dos exames nacionais, do concurso de acesso ao ensino superior, etc., quais os projetos a apresentar e como organizar a sua apresentação em pouco mais de cinco minutos?
Fui então ao nosso site e percebi que seria dificílimo partilhar uma visão abrangente de todos os projetos aí documentados, do ensino pré-escolar ao 3.º ciclo do ensino básico, e nos diferentes cursos científico-humanísticos do ensino secundário: visitas de estudo, projetos e iniciativas promovidas e acolhidas no Colégio, cursos e participações em eventos académicos em universidades portuguesas e estrangeiras, etc. Aí se testemunha e concretiza a aposta numa educação integral e diferenciada, tanto na área das Ciências e Tecnologias, como na das Ciências Socioeconómicas, das Línguas e Humanidades, e das Artes; a aposta nos empreendedorismos científico, económico, artístico e social, para os quais mobilizamos esforços de desenvolvimento de diferentes inteligências; e a defesa incondicional de uma educação humanista, personalista, como procurei fundamentar na primeira parte desta apresentação.
Proponho que seja cada uma das pessoas aqui presentes a discernir quais as notícias que consideram relevantes para a reflexão suscitada nestas VII Jornadas Empresarias das Fundações AEP e Serralves, subordinadas ao tema “iniciativa e realização”: www.lusofrances.pt.

Ilustração: Isabelle Arsenault.