“Nos caminhos de Perúgia à Porciúncula, sob um frio inclemente, o irmão Leão vai de sociedade com o Santo e eis que este começa uma exortação sobre a humildade, que nos faz ver o pobre irmão Leão, afastado no caminho e, da frente, o Santo a consolá-lo, animando-o e chamando para junto de si com a doçura do seu elogio da humildade, que é o cântico da Alegria Perfeita.
— Irmão Leão, se fôssemos os melhores modelos da santidade e edificação, escuta bem e lembra-te do que te digo, não era ainda nisso que consistiria a alegria perfeita.
E continuando a atrair o irmão Leão.
— Irmão Leão, se até tivéssemos poder de dar vista aos cegos, andar aos paralíticos, liberdade aos possessos, voz aos mudos e ouvido aos surdos, ou se mesmo tivéssemos o poder de ressuscitar os mortos ao fim de quatro dias, nota bem o que te digo — não consistiria ainda nisso a alegria perfeita.
E ainda:
— Irmão Leão, se falássemos todas as línguas, conhecêssemos todas as ciências, soubéssemos de cor toda a Escritura e estivéssemos em estado de descobrir as coisas futuras e o segredo dos corações, escuta-me bem: ainda não seria isso a alegria perfeita.
E, continuando sempre, desperta o irmão Leão que ansiosamente pergunta: — Mas, por amor de Deus, explica-me, Pai, onde poderíamos encontrar a alegria perfeita?
E o Santo, que trouxera até si, como outrora Sócrates com seus discípulos, o próprio coração vivo do irmão Leão, responde:
— Vamos, agora, chegar à Porciúncula transidos do frio, ensopados da chuva, cobertos da lama dos caminhos, exaustos de fome.
Se ao nosso apelo, o irmão porteiro nos respondesse, ao anunciarmo-nos como irmãos: ‘Mentis, vós sois dois salteadores das estradas, que atacais de surpresa os viandantes e roubais aos pobres as esmolas’.
Se esse irmão assim nos falasse e, não abrindo, nos deixasse fora, esfomeados, à chuva, à neve, e viesse a noite e tivéssemos paciência para suportar as injúrias, os maus tratos e, sem murmurações, humilde e caridosamente, pensássemos que o irmão porteiro nos conhece pelo que somos e que Deus o fez assim falar contra nós, então, irmão Leão, ouve-me bem: — nisso é que estaria a alegria perfeita.
E se depois ainda nos espancasse e humildemente recebêssemos tudo — nisso é que estaria a alegria perfeita.
E em conclusão: para além e por cima de todas as graças e dons do Espírito Santo, que Deus concede aos seus amigos, a maior alegria é vencermo-nos e tudo suportar de boa vontade, por amor de Cristo.
Porque de nenhum dos outros dons nos podemos dar gabos e só na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo nos podemos glorificar.”

Leonardo Coimbra [1883-1936]
«S. Francisco de Assis | A visão franciscana da vida» [1927]