No Porto, em 1890, a resistência ao Ultimato inglês significou a consagração cívica de Antero de Quental. Eleito presidente da Liga Patriótica do Norte, Antero passaria algumas noites a ver desfilar cortejos com archotes diante da casa onde estava hospedado. Ao contrário do que se passava em muitos países, onde o herói nacional era geralmente um chefe militar, em Portugal, no centro do culto patriótico estava um escritor.
Com efeito, o destaque dos escritores e da imprensa não era um acidente, decorria, logicamente, do modo como a imprensa e a literatura se conceberam e foram utilizadas como um elemento de organização da sociedade na segunda metade do século XIX. De facto, ser escritor era então uma boa recomendação para obter proteções e cargos na “nação intelectual” em que as letras eram um requisito para o sucesso político e em que os homens mais respeitados eram escritores. É muito interessante que não exista um único político importante na segunda metade do século XIX que não tenha o nome e a bibliografia no «Dicionário Bibliográfico Português», de Inocêncio Francisco da Silva.
A Geração de 70 comportava-se como uma “intelligentsia” [no sentido que os escritores russos deram à palavra no século XIX] e detinha uma enorme influência cultural e política. Com efeito, a razão por que os escritores “dissidentes” se tomavam tão a sério era porque, objetivamente, eram levados muito a sério. Como escreveu Rui Ramos: “Lê-los não é consultar os desabafos privados de gente que ninguém compreendia, mas ir à fonte daquilo que todos repetiam”.
Em «As Modernas Ideias na Literatura Portuguesa», súmula da história da sua própria geração, Teófilo Braga declarou que o “sentimento da nacionalidade” era a “maior força de Portugal”. O País havia de levantar-se, não através de recursos materiais, mas graças a um “impulso moral”, à “intuição de um grande destino”. O intelectual aparece assim como representante do “génio nacional”.
Isso determina, de algum modo [particularmente entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX], as tendências dominantes do pensamento filosófico português, particularmente situado no âmbito de uma “meta-religião” [“antiteologia” ou “crença substituta”, nas palavras de George Steiner], reflexo de uma relação legitimamente difícil entre uma parte significativa da “intelligentsia” portuguesa e a Igreja nas suas estâncias clericais. É curioso que o anticlericalismo em Portugal tenha sido quase tão institucional quanto o clericalismo.
Proposta em filosofias da religião difusas [que, em Portugal, ao longo da segunda metade do século XIX, tiveram paternidades tão diversas como as de Amorim Viana, Cunha Seixas, Teófilo Braga, Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Sampaio Bruno e Basílio Teles], essa “meta-religião” acaba por ser a expressão de uma nostalgia do absoluto que está presente nas formulações do messianismo sebastianista, do Quinto Império e do Encoberto [de Sampaio Bruno a Fernando Pessoa], e que, na sequência da celebração do terceiro centenário da morte de Camões [1880] e do Ultimato [1890], está presente nas propostas de “reaportuguesamento” de Portugal: do neogarrettismo de Alberto d’Oliveira ao saudosismo de Teixeira de Pascoaes, não esquecendo contributos como os de Afonso Lopes Vieira e António Sardinha.
Importa lembrar que as principais matrizes da reflexão filosófica em Portugal, entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX, encontram-se como que fossilizadas nas diferentes camadas da poesia romântica e neorromântica portuguesa desse período, tenha ela um carácter simbolista, decadentista, saudosista, ou revele os indícios do modernismo que eclode em Portugal com a Geração de Orpheu.

Pintura: «O Grupo do Leão» [1885] | Columbano Bordalo Pinheiro [1857-1929]